A Dunamu, operadora da Upbit – uma das maiores exchanges de criptomoedas da Coreia do Sul -, registrou receita operacional consolidada de 1,56 trilhão de won sul-coreano (US$ 1,03 bilhão, aproximadamente R$ 5,9 bilhões na cotação atual) em 2025, queda de 10% frente aos 1,73 trilhão de won (US$ 1,1 bilhão, cerca de R$ 6,3 bilhões) do ano anterior, conforme relatório financeiro divulgado pela companhia na segunda-feira. O lucro líquido recuou ainda mais: 27,9%, para 708,9 bilhões de won (US$ 468 milhões, aproximadamente R$ 2,7 bilhões).
A pergunta que domina as mesas de operação é clara: se a maior exchange de varejo da Ásia Oriental – com estrutura de mercado análoga à que a B3 representa para ações no Brasil – já sentiu esse nível de compressão, o que isso sinaliza sobre o apetite global do investidor de varejo por cripto neste ciclo?
O que está por trás dessa movimentação?
Em termos simples, imagine uma churrascaria premium que viveu 2024 como véspera de carnaval – filas na porta, rodízio esgotado, garçons correndo. Em 2025, o movimento continuou, mas o cliente passou a preferir o restaurante japonês ao lado. O volume de trades na Upbit desabou: médias diárias que chegaram a US$ 9 bilhões em dezembro de 2024 afundaram para US$ 1,78 bilhão em novembro de 2025, uma contração de 80% em menos de um ano.
O catalisador dessa migração foi estrutural. O índice KOSPI – equivalente sul-coreano do Ibovespa – subiu mais de 70% em 2025, redirecionando o capital especulativo do varejo para o mercado acionário doméstico. Quando a bolsa local oferece retornos expressivos com menor volatilidade percebida, o varejo tende a reequilibrar portfólios, e a liquidez de cripto é a primeira a sofrer.
Além disso, um hack de 44,5 bilhões de won (US$ 33 milhões, aproximadamente R$ 190 milhões) golpeou a reputação da plataforma, expondo vulnerabilidades sistêmicas após um histórico de 20 falhas operacionais registradas nas principais exchanges coreanas entre 2023 e setembro de 2025, afetando mais de 900 usuários.
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Quais são os dados e fundamentos destacados?
O relatório financeiro da Dunamu revela uma estrutura de receita altamente concentrada e métricas operacionais que merecem atenção detalhada:
- 1,53 trilhão de won (US$ 1,01 bilhão) em comissões de trading – “A Dependência Crônica”
As taxas de negociação representam 98,3% da receita total, ante 1,71 trilhão de won (US$ 1,13 bilhão) em 2024. Uma exchange que gera quase toda sua receita de uma única fonte tem elasticidade zero quando os volumes caem – cada ponto percentual de retração no volume impacta diretamente a linha de faturamento. - Lucro operacional caindo 26,7% – “A Sangria Principal”
O lucro operacional recuou para 869,3 bilhões de won (US$ 573 milhões, cerca de R$ 3,3 bilhões). A queda percentual do lucro quase três vezes maior que a queda de receita revela alavancagem operacional negativa: custos fixos elevados comendo margens quando o volume encolhe. - Ativos totais de 13,17 trilhões de won (US$ 8,7 bilhões) – “O Choque de Realidade”
Os ativos circulantes caíram 2,18 trilhões de won (US$ 1,4 bilhão) em um único ano, puxados pela redução nos depósitos de clientes. Menos dinheiro depositado na exchange significa menos capital em circulação, menos ordens no livro, e spreads mais amplos – um ciclo que se retroalimenta negativamente. - Market share caindo de ~80% para 65% – “A Erosão Silenciosa”
A rival Bithumb avançou para 31,1% do mercado doméstico no quarto trimestre de 2025, com volume de US$ 86,5 bilhões, enquanto a Upbit registrou US$ 180,7 bilhões de um total de US$ 277,9 bilhões entre as principais exchanges coreanas. A concentração histórica está cedendo.
Conforme reportado pelo The Block, a Dunamu atribuiu explicitamente os declínios a volumes de negociação de criptomoedas menores em comparação ao ano anterior – sem eufemismos sobre “normalização de mercado” ou “ajuste cíclico”.
O que muda na estrutura do mercado?
A Coreia do Sul é historicamente um termômetro confiável do humor do varejo cripto global. O fenômeno do “Kimchi Premium” – diferencial de preço entre exchanges coreanas e internacionais – serviu por anos como proxy do excesso de euforia especulativa no segmento. Quando esse mercado esfria com essa velocidade, o sinal é relevante além das fronteiras coreanas.
Dois movimentos estruturais chamam atenção. Primeiro, o XRP liderou o volume de negociações na Upbit em 2025 com mais de US$ 1 trilhão negociado, atingindo 13,26 milhões de usuários – equivalente a um em cada quatro sul-coreanos. Em determinados dias de julho, o XRP respondeu por até 22% de todos os trades diários da plataforma, superando Bitcoin e Ethereum. Esse perfil sugere concentração em ativos especulativos de nicho, não diversificação saudável.
Segundo, das 54 novas listagens em 2025, apenas uma foi um projeto doméstico (“Kimchi coin”), enquanto sete das dez delistagens foram projetos sul-coreanos. A Upbit está, na prática, deslocando capital doméstico para ativos internacionais – o que pode ser lido como maturidade regulatória ou como recuo do ecossistema local de inovação, dependendo da perspectiva.
No horizonte corporativo, a fusão por troca de ações entre a Naver Financial – braço fintech do gigante de internet Naver – e a Dunamu, que tornaria a Dunamu subsidiária integral da Naver, foi postergada por aproximadamente três meses, segundo o Korea Herald, citando mudanças nas aprovações regulatórias. Paralelamente, a Dunamu mantém planos de IPO na Nasdaq, e Naver e Dunamu anunciaram investimento conjunto de 10 trilhões de won (US$ 6,8 bilhões, aproximadamente R$ 39 bilhões) em infraestrutura financeira baseada em inteligência artificial e blockchain.
Esse movimento não é isolado. Como analisamos anteriormente no CriptoFácil, o volume de altcoins globalmente já havia despencado até 80% em condições monetárias restritivas – a queda na Upbit é mais um dado confirmando essa tendência macro que atravessa todas as geografias.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para você, investidor brasileiro, o relatório da Upbit funciona como um indicador antecedente. A Coreia do Sul e o Brasil compartilham um perfil similar de investidor de varejo em cripto: alta sensibilidade a narrativas, forte presença de pessoas físicas no mercado, e rápida rotação entre classes de ativos quando surgem alternativas domésticas mais atraentes.
O Ibovespa registrou desempenho expressivo em determinados períodos de 2025, assim como o KOSPI coreano. Se o varejo coreano migrou capital de cripto para bolsa local, a pergunta natural é: o varejo brasileiro – que opera em plataformas como Mercado Bitcoin, Foxbit, Coinext e nas internacionais disponíveis no país – está fazendo movimento similar?
Os dados de volume nas exchanges brasileiras ainda não apresentam queda tão dramática, mas a tendência de desaceleração é visível. Exchanges globais também sentem a pressão: analistas do Mizuho cortaram preço-alvo da Gemini justamente pela queda de volumes, reforçando que o fenômeno não é exclusivo da Ásia.
Do ponto de vista tributário, o investidor brasileiro deve lembrar que ganhos em operações com criptomoedas estão sujeitos ao regime da Lei 14.754/2023 para ativos no exterior, e à IN 1.888 da Receita Federal para declaração de posses. A isenção de R$ 35 mil mensais em vendas aplica-se apenas a exchanges domiciliadas no Brasil – movimentações em plataformas internacionais seguem regras distintas.
Riscos e o que observar
Três cenários merecem monitoramento nas próximas semanas:
- Risco de Contágio de Sentimento: O Bitcoin na Upbit cruzou abaixo de 100 milhões de won (99.777.000 won) pela primeira vez desde novembro de 2024, encerrando 15 meses de estabilidade acima desse nível psicológico. Quebras de suporte em mercados de varejo relevantes tendem a amplificar movimentos de saída – e o Google Trends para “Bitcoin” na Coreia do Sul já recuou de índice 100 (pico de 2024) para 44, sinal de arrefecimento de interesse orgânico.
- Risco de Concentração em Exchanges: Com a Upbit perdendo share para a Bithumb e volumes gerais em queda, a liquidez do mercado coreano se fragmenta. Exchanges menores em qualquer geografia – incluindo o Brasil – que dependam de um ou dois ativos para sustentar volume ficam expostas a ciclos de contração análogos. Como analisamos no caso da Kraken, que congelou planos de IPO diante das incertezas de mercado, o ambiente para exchanges está exigindo mais diversificação de receita do que o modelo tradicional de fee sobre volume permitia.
- Risco de Fusão Regulatória: O adiamento da fusão Naver-Dunamu por mudanças no framework regulatório coreano aponta para um ambiente de maior escrutínio sobre exchanges de grande porte. Reguladores brasileiros, particularmente o Banco Central e a CVM, têm avançado na supervisão das VASPs (prestadores de serviços de ativos virtuais) – movimentos similares no Brasil podem gerar volatilidade operacional para plataformas domésticas.
O gatilho principal a ser monitorado é o volume diário médio da Upbit nas primeiras semanas de abril de 2026: se os números voltarem acima de US$ 3 bilhões diários – impulsionados por eventual renovação do interesse de varejo ou por correção no mercado acionário coreano -, o ciclo de contração pode estar se revertendo. Se os volumes permanecerem abaixo de US$ 2 bilhões, a narrativa de “fuga estrutural do varejo” ganha consistência e pode pressionar o sentimento global. Até lá, paciência é o único ativo que não desvaloriza.

