A Tether, emissora da maior stablecoin do mundo, realizou um investimento estratégico de US$ 200 milhões (aproximadamente R$ 1,15 bilhão na cotação atual) na Whop, um marketplace digital de rápido crescimento. A rodada de financiamento avaliou a plataforma em US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 9,2 bilhões), marcando um passo decisivo da gigante cripto para transformar o USDT em uma ferramenta de infraestrutura para o comércio eletrônico global, para além da especulação em exchanges.
Essa movimentação ocorre em um momento em que stablecoins superam US$ 1 trilhão em volume mensal, sinalizando uma demanda reprimida por liquidação instantânea em dólares digitais. A integração visa permitir que milhões de criadores de conteúdo e empreendedores digitais utilizem o Tether Wallet Development Kit (WDK) para transacionar valores peer-to-peer, reduzindo a dependência de processadores de pagamentos tradicionais que cobram taxas elevadas e possuem prazos de liquidação lentos.
O que está por trás dessa movimentação?
Em termos simples, a Whop funciona como uma “loja de aplicativos” para a economia dos criadores, permitindo a venda de softwares, comunidades privadas, cursos e sinais de trading. Ao investir na plataforma, a Tether não está apenas buscando retorno financeiro, mas sim integrando o USDT diretamente onde a atividade econômica acontece. Isso soluciona um problema crônico para vendedores digitais: o atrito bancário internacional.
A estratégia reflete uma tendência mais ampla do setor tecnológico. Assim como a Meta avalia integrar stablecoins em seus aplicativos para facilitar pagamentos globais, a Tether está construindo trilhos para que o USDT seja a moeda nativa de plataformas de comércio. Ao fornecer as ferramentas (WDK) para que a Whop construa carteiras de auto-custódia dentro do próprio aplicativo, a Tether transforma o marketplace em um ecossistema financeiro descentralizado.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
Conforme reportado pela The Defiant e detalhado no comunicado oficial, os números por trás do acordo revelam a escala da ambição:
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- Volume Econômico Massivo: Os criadores na Whop geram coletivamente cerca de US$ 3 bilhões (aproximadamente R$ 17,2 bilhões) por ano, com o volume bruto de transações crescendo cerca de 25% mês a mês.
- Tecnologia de Auto-Custódia: A integração utilizará o WDK da Tether, permitindo que usuários mantenham o controle de suas chaves privadas, mitigando riscos de contraparte associados a custodiantes centralizados.
- Expansão Geográfica: O capital será utilizado para expandir operações na América Latina, Europa e Ásia-Pacífico, regiões onde a demanda por dólares digitais é alta devido à volatilidade das moedas locais.
- Contexto Competitivo: O investimento fortalece a Tether contra concorrentes como a Circle, que recentemente reportou receita recorde e US$ 75 bilhões em circulação do USDC, acirrando a disputa pela hegemonia nos pagamentos digitais.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para o investidor brasileiro, especialmente aqueles que atuam como “infoprodutores”, desenvolvedores ou freelancers digitais, a notícia tem impacto prático imediato. O Brasil é um dos maiores mercados de produtos digitais do mundo, e muitos empreendedores utilizam plataformas globais como a Whop para vender para audiências internacionais. A capacidade de receber pagamentos diretamente em USDT elimina intermediários de câmbio (como SWIFT ou cartões de crédito internacionais), que costumam “morder” de 3% a 6% do faturamento em taxas e spread.
No entanto, a facilidade operacional traz responsabilidades regulatórias. É fundamental lembrar que o recebimento de valores em criptoativos, mesmo em plataformas estrangeiras, deve ser reportado à Receita Federal conforme a Instrução Normativa 1.888. Além disso, com a Lei 14.754 (Lei das Offshores e Criptoativos), rendimentos mantidos no exterior podem estar sujeitos a nova tributação de 15%. A integração de gateways de pagamento cripto facilita o fluxo de caixa, mas exige contabilidade rigorosa em reais.
O movimento também pressiona fintechs tradicionais. Recentemente, a Payoneer iniciou movimentos para lançar serviços de stablecoin, ciente de que plataformas descentralizadas estão capturando fatia de mercado. Para o brasileiro, isso significa mais competição e, possivelmente, custos menores para receber dinheiro do exterior no curto prazo.
Riscos e o que observar
Apesar do otimismo, existem riscos técnicos e regulatórios claros. A implementação de carteiras de auto-custódia para um público de massa (usuários da Whop que podem não ser nativos de cripto) traz o risco de perda irreversível de fundos caso chaves de acesso sejam perdidas. Além disso, a Tether continua sob escrutínio global quanto à transparência total de suas reservas, embora venha apresentando lucros recordes.
O investidor deve monitorar o volume de transações em USDT dentro da Whop nos próximos trimestres. Se a adoção for significativa, isso validará a tese de que stablecoins são superiores aos cartões de crédito para microtransações globais; caso contrário, poderá indicar que a barreira de entrada da usabilidade (UX) ainda é um obstáculo para o público geral.

