Solana voltou a ultrapassar o Ethereum na métrica mais confiável de uso real de rede – o volume ajustado de stablecoins em dólar -, consolidando uma liderança que, há doze meses, analistas classificavam como anomalia passageira: a rede de Anatoly Yakovenko registrou US$ 650 bilhões em volume ajustado de stablecoins no período mais recente medido, equivalentes a aproximadamente R$ 3,9 trilhões na cotação atual de R$ 6,00 por dólar, enquanto o Ethereum ficou abaixo desse patamar pela segunda vez em seis meses – tudo isso em um cenário em que o mercado global de stablecoins atingiu US$ 1,8 trilhão de capitalização e USDC e USDT travam sua própria batalha de dominância. A pergunta que domina as mesas de operação é clara: este é o sinal de uma virada estrutural definitiva na hierarquia de blockchains de liquidez, ou uma vantagem cíclica que o Ethereum e seus rollups vão reabsorver nos próximos trimestres?
Contexto do mercado
A rivalidade entre Solana e Ethereum no segmento de stablecoins não é nova, mas ganhou densidade institucional a partir do início de 2025, quando a Solana começou a transitar de plataforma associada a meme coins para infraestrutura de pagamentos de alta frequência. O ponto de inflexão foi a combinação de três vetores simultâneos: a chegada da Visa para liquidação de USDC via rede Solana, com volume anualizado próximo de US$ 4 bilhões (cerca de R$ 24 bilhões); as integrações com Stripe e WorldPay, que reduziram o tempo de processamento em aproximadamente 50%; e a adição de suporte a SOL pela Revolut em dezembro de 2025 – cada um desses movimentos adicionando camadas de demanda orgânica e não especulativa ao volume registrado on-chain.
Como cobrimos no CriptoFácil sobre o ecossistema de stablecoins na Solana e a marca de US$ 1 bilhão do USDG da Paxos, o crescimento não é concentrado em um único ativo: o USDC responde por 53% da capitalização de stablecoins na rede, mas PYUSD, USDT e emissões institucionais diversas compõem o restante, criando um ecossistema de liquidez plural que reduz dependência de um único emissor. É essa diversificação – e não apenas a velocidade da rede – que torna o número atual mais robusto do que os picos anteriores.
O volume ajustado é a métrica relevante aqui precisamente porque filtra o ruído: diferentemente do volume bruto, que conta cada transação independentemente de loops circulares e arbitragem interna de protocolos, o volume ajustado remove fluxos que se cancelam – wash trading, liquidações internas de DEXs e repagamentos de empréstimos que não representam transferência econômica real. Quando essa limpeza é aplicada e o Solana ainda sai na frente, o sinal é mais limpo do que qualquer headline de TVL. Como analisamos anteriormente no CriptoFácil sobre as projeções da Chainalysis de volume de stablecoins de US$ 1,5 quatrilhão até 2035, o mercado ainda está nos primeiros capítulos de uma curva de crescimento de décadas – e quem capturar a infraestrutura de liquidação hoje terá vantagem de rede difícil de desfazer.
Em termos simples, imagine
Pense no sistema Pix do Banco Central. Quando o BC divulga estatísticas mensais do Pix, ele não conta cada tentativa de transação ou cada transferência que foi estornada – conta apenas o dinheiro que efetivamente saiu de uma conta e chegou a outra, representando movimentação econômica real. O volume ajustado de stablecoins funciona pela mesma lógica: é o “Pix settlement” do mundo cripto, onde apenas os valores que genuinamente trocaram de mãos são contabilizados.
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Agora imagine que, de repente, o volume real do Pix processado via bancos digitais como o Nubank ultrapassasse o volume processado pelos grandes bancos tradicionais – não pelo número de transações tentadas, mas pelo valor que efetivamente circulou. Esse seria um sinal de que a infraestrutura mais nova, mais barata e mais rápida passou a ser a preferida para movimentações que importam de verdade. É exatamente isso que está acontecendo entre Solana e Ethereum no mercado de stablecoins.
O que o investidor brasileiro precisa entender com essa analogia é o seguinte: volume ajustado de stablecoins é um termômetro de adoção real, não de especulação – quando ele aponta para Solana, significa que empresas, protocolos e usuários estão escolhendo aquela rede para mover dinheiro de verdade, e esse tipo de preferência cria efeitos de rede cumulativos que tendem a se auto-reforçar ao longo do tempo.
O que os dados revelam?
- ‘O Volume Principal’ – Solana registrou aproximadamente US$ 650 bilhões (cerca de R$ 3,9 trilhões) em volume ajustado de stablecoins no período analisado, o maior registrado por qualquer blockchain individualmente, segundo dados acompanhados pela plataforma CryptoRank. O Ethereum ficou abaixo desse patamar, marcando a segunda vez em seis meses que Solana assume a liderança nessa métrica específica – o que transforma o evento de “anomalia pontual” em “padrão recorrente”.
- ‘A Metodologia do Ajuste’ – O volume ajustado remove transações circulares, wash trading e fluxos que não representam transferência econômica líquida. Na prática, isso significa que o número da Solana não está inflado por arbitragem interna de seus DEXs ou por loops de colateral em plataformas de empréstimo – é predominantemente transferência de valor real entre participantes distintos, o que eleva significativamente a qualidade do dado.
- ‘A Composição por Stablecoin’ – O USDC domina com 53% da capitalização de stablecoins na Solana, com o market cap total da rede atingindo US$ 15,4 bilhões (aproximadamente R$ 92,4 bilhões) em alta de 12% mês a mês. O PYUSD da PayPal registrou melhoria de velocidade de 500% na rede, sinalizando que emissores institucionais estão otimizando ativamente para Solana – não apenas listando seus ativos lá.
- ‘O Crescimento Acumulado’ – O volume cumulativo de pagamentos em stablecoins na Solana cresceu 760% ano a ano, com a rede processando US$ 2,61 bilhões em pagamentos (46% do total de transferências on-chain). Esse crescimento não veio de um único pico especulativo – foi construído trimestre a trimestre sobre casos de uso de pagamentos recorrentes.
- ‘O Cenário Global de USDC vs. USDT’ – Globalmente, o USDC superou o USDT em volume ajustado de transações em 2026: US$ 2,2 trilhões versus US$ 1,3 trilhão, segundo dados do banco Mizuho Financial. Esse dado é relevante porque Solana é a rede onde o USDC tem crescimento mais acelerado – uma convergência de dominância de ativo e dominância de rede que se retroalimenta.
- ‘O Preço do SOL no Contexto’ – O SOL consolidava na faixa de US$ 84–86 (cerca de R$ 504–R$ 516) com alta de 2% a 6% em 24 horas no momento do dado, com US$ 80 como suporte imediato e US$ 90 como resistência. A consolidação modesta de preço diante de um volume histórico de stablecoins sugere que o mercado ainda não precificou completamente a narrativa – ou que o movimento de preço virá com alguma defasagem.
Em conjunto, esses dados apontam para uma Solana que não está apenas competindo com o Ethereum – está construindo uma posição de liderança em liquidação de stablecoins que cada vez mais se parece com uma vantagem estrutural, sustentada por parcerias institucionais, melhoria de infraestrutura e crescimento orgânico de usuários, e não por um ciclo de especulação que pode se dissipar na próxima crise de mercado.
O que muda na estrutura do mercado?
O efeito de primeira ordem é direto: a narrativa de “Solana como plataforma de alto risco, alta volatilidade” perde espaço para “Solana como infraestrutura de liquidação institucional”, o que tem implicações imediatas para o posicionamento relativo de SOL versus ETH nas carteiras de investidores sofisticados. Quando analistas da Messari descrevem a rede como “infraestrutura de pagamentos e alternativa a ofertas de fintech”, estão sinalindo uma mudança de frame que leva gestores a recategorizar o ativo – de aposta especulativa de alto beta para exposição a infraestrutura financeira.
O efeito de segunda ordem recai sobre os emissores de stablecoins – Circle, Tether e Paxos – que precisam alocar recursos de desenvolvimento, liquidez e suporte para as redes onde seu produto é mais utilizado. Quando o volume ajustado migra para Solana de forma consistente, esses emissores têm incentivos crescentes para priorizar integrações nativas, otimizações de custo e parcerias de distribuição na rede – o que cria um ciclo virtuoso onde mais suporte de emissores atrai mais usuários, que geram mais volume. A própria Ethereum Foundation converteu recentemente 5.000 ETH em stablecoins, um sinal de que até o ecossistema mais estabelecido reconhece o papel crescente dessas reservas de valor – mas a questão é em qual rede esse volume circula depois.
O efeito de terceira ordem é o mais profundo: se Solana sustentar a liderança em volume ajustado de stablecoins por mais dois ou três trimestres consecutivos, a narrativa de “Ethereum como camada de liquidação da DeFi global” – que sustenta parte significativa da tese de valor do ETH – começa a ser questionada de forma estrutural, não apenas por traders de curto prazo. Isso não elimina o Ethereum, que mantém vantagem em TVL total e em segurança percebida para contratos complexos; mas coloca o Layer 2 Ethereum diretamente na berlinda: se os rollups não conseguirem reconquistar volume de stablecoins com UX comparável à Solana, o caso para ETH como “fundação da internet financeira” fica mais difícil de argumentar. A opinião editorial do CriptoFácil sobre este movimento é direta: essa não é mais uma disputa de performance técnica – é uma disputa por qual rede se torna o padrão de liquidação do mundo real, e Solana está vencendo esse argumento com dados, não com marketing.
Quais níveis técnicos importam agora?
- ‘O Limiar de Consolidação’ – Volume ajustado de stablecoins acima de US$ 500 bilhões mensais de forma recorrente é o patamar que transforma a liderança da Solana de evento pontual para dado estatisticamente consistente. Abaixo desse nível por dois meses seguidos, o argumento de “virada estrutural” perde força imediata.
- ‘O TVL como Âncora’ – O market cap total de stablecoins na Solana em US$ 15,4 bilhões (R$ 92,4 bilhões) precisa manter crescimento mês a mês. Uma queda abaixo de US$ 13 bilhões sinalizaria saída de liquidez institucional e invalidaria parcialmente a tese de adoção crescente.
- ‘O Suporte do SOL’ – US$ 80 (aproximadamente R$ 480) é o suporte técnico imediato do SOL, referendado como nível de interesse de compra em múltiplas sessões recentes. Uma quebra abaixo desse nível com volume alto seria sinal de que o mercado não está precificando positivamente a liderança em stablecoins – potencialmente indicando que o rally de narrativa já foi antecipado.
- ‘A Resistência a Superar’ – US$ 90 (aproximadamente R$ 540) é a resistência imediata do SOL. Um fechamento semanal acima desse nível, coincidindo com novo pico de volume ajustado de stablecoins, seria a confluência de dados on-chain e preço que analistas técnicos precisam para escalar posições com convicção.
- ‘O Barômetro do Ethereum’ – Acompanhar a participação percentual do Ethereum no volume ajustado global de stablecoins é tão importante quanto acompanhar o número absoluto da Solana. Se o Ethereum cair abaixo de 20% do volume ajustado global – contra os ~25-30% históricos recentes – o mercado começará a precificar esse diferencial nos múltiplos relativos entre SOL e ETH.
Como sempre, o volume será o árbitro final.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Efeito BRL: Com o dólar cotado a aproximadamente R$ 6,00, o SOL na faixa de US$ 84–86 equivale a R$ 504–R$ 516 por token, enquanto o ETH – ainda acima de US$ 1.800 na maioria das plataformas – roda acima de R$ 10.800. A virada narrativa de Solana sobre Ethereum em stablecoins tende a comprimir o múltiplo de avaliação do ETH em relação ao SOL – o chamado “ETH/SOL ratio” – o que significa que, para o investidor brasileiro já posicionado em ETH, vale monitorar se a diferença de performance entre os dois ativos começa a se acentuar nas próximas semanas. Você não precisa sair de ETH para participar da narrativa Solana, mas ignorar o diferencial de crescimento on-chain seria negligenciar um dado relevante para qualquer estratégia de alocação em altcoins.
Acesso prático: Para o investidor brasileiro que quer ganhar exposição ao SOL, as principais plataformas regulamentadas com operação no Brasil incluem Mercado Bitcoin, Foxbit e Binance Brasil – todas com pares SOL/BRL ou SOL/USDT de liquidez razoável. Quem prefere exposição via mercado regulado tradicional pode acompanhar o HASH11 na B3, que tem alocação em ativos do ecossistema cripto mais amplo, embora sem exposição direta ao SOL na proporção do crescimento de stablecoins. ETFs de Ethereum como o ETHE11 também estão disponíveis na B3 para quem mantém convicção no ecossistema Ethereum apesar da perda de liderança momentânea em volume de stablecoins.
Obrigações fiscais: Ganhos com criptoativos no Brasil são regulados pela Lei 14.754/2023 e pela Instrução Normativa 1.888 da Receita Federal. Operações que resultem em lucro acima de R$ 35.000 mensais estão sujeitas a tributação com alíquotas entre 15% e 22,5%, dependendo do montante do ganho. O pagamento deve ser feito via DARF até o último dia útil do mês seguinte à realização do lucro, e o cálculo pode ser feito com auxílio do programa GCAP da Receita Federal. Dado o ambiente de alta volatilidade e possível valorização do SOL diante da narrativa de liderança em stablecoins, é recomendável consultar um contador especializado em criptoativos antes de realizar posições relevantes.
Riscos e o que observar
- ‘O Risco de Reabsorção por L2s’ – Os rollups do Ethereum – Arbitrum, Base e Optimism em particular – têm melhorado consistentemente UX e custos de transação. Se Circle e outros emissores acelerarem integrações nativas em L2s com incentivos de liquidez, parte do volume que hoje vai para Solana pode ser reabsorvida pelo ecossistema Ethereum. O gatilho observável: crescimento mês a mês do volume ajustado de stablecoins em L2s Ethereum acima de 20% por dois trimestres consecutivos.
- ‘O Risco Regulatório Americano’ – A legislação de stablecoins em discussão no Congresso americano pode criar exigências de custódia, auditoria e infraestrutura que favoreçam redes com maior histórico de conformidade institucional percebida – o que poderia beneficiar o Ethereum em detrimento da Solana. O gatilho observável: texto final da lei americana de stablecoins com requisitos técnicos específicos de rede ou auditoria que Solana não cumpra nativamente.
- ‘O Risco de Concentração de Volume’ – Se uma parcela desproporcional do volume ajustado de Solana estiver concentrada em dois ou três protocolos (como Jupiter ou um único programa de pagamentos institucional), a liderança em stablecoin se torna frágil: a saída ou interrupção de um desses protocolos pode reverter a posição rapidamente. O gatilho observável: análise de concentração de volume on-chain mostrando que mais de 40% do volume ajustado vem de um único contrato ou protocolo.
- ‘O Risco de Narrativa Reddit’ – O dado partiu originalmente de uma discussão em fórum público, o que significa que a amplificação inicial pode ter sido maior do que a significância isolada do número justificaria. Volume ajustado de stablecoins é uma métrica importante, mas não é o único indicador de saúde de rede – e uma leitura que ignora TVL, receita de validadores, crescimento de desenvolvedores e diversidade de aplicações corre o risco de tomar uma parte pelo todo. O gatilho observável: dados de DeFiLlama mostrando estagnação ou queda de TVL em Solana enquanto o volume ajustado sobe – o que poderia indicar volume sem profundidade.
O cenário é binário: se Solana sustentar o volume ajustado de stablecoins acima de US$ 500 bilhões mensais (aproximadamente R$ 3 trilhões) por mais dois trimestres consecutivos, com o market cap de stablecoins na rede ultrapassando US$ 18 bilhões e o SOL fechando semanas acima de US$ 90 com suporte de fluxo institucional, o mercado terá evidências suficientes para precificar uma mudança estrutural permanente na hierarquia de redes de liquidação – e a compressão do múltiplo ETH/SOL se tornará um tema dominante em 2026; caso contrário, se os L2s do Ethereum recuperarem participação, se algum protocolo-âncora de Solana interromper operações ou se legislação americana criar barreiras para emissores em redes não-EVM, a liderança atual será reclassificada como mais uma oscilação cíclica em uma disputa que ainda não tem vencedor definitivo. Até lá, paciência é o único ativo que não desvaloriza.

