Os mineradores públicos de Bitcoin (BTC) iniciaram um movimento de venda expressivo, liquidando cerca de 5.359 BTC no último mês, um montante avaliado em US$ 348 milhões (aproximadamente R$ 2 bilhões). Essa pressão vendedora ocorre em um momento delicado, onde o Bitcoin luta para manter o suporte na região de US$ 64.000 (aproximadamente R$ 371.200), sinalizando que a indústria de mineração está migrando de uma estratégia de acumulação para uma de sobrevivência operacional.
A redução de 4,44% nas tesourarias dessas empresas não é apenas um ajuste contábil, mas um reflexo direto do aumento dos custos de energia elétrica e da compressão das margens de lucro pós-halving. Com a receita diária sob pressão, o mercado se questiona se essa liquidação é pontual ou o início de uma capitulação mais ampla que poderia impor um teto temporário ao preço do ativo.
O que explica a movimentação atual?
Em termos simples, a mineração de Bitcoin é um negócio de margens estreitas: você gasta energia para ganhar BTC. Quando o custo da energia sobe e a quantidade de BTC recebida cai (devido à concorrência ou ao halving), a conta deixa de fechar para os operadores menos eficientes. O que vemos agora é empresas usando suas reservas de Bitcoin não mais como um ativo de ‘tesouro’ intocável, mas como ‘capital de giro’ para pagar contas de luz que encareceram.
As tesourarias, que historicamente serviam como uma aposta na valorização futura do ativo, estão sendo queimadas para manter as luzes acesas. Esse cenário é agravado pela queda do chamado hashprice — o valor que um minerador pode esperar ganhar por sua capacidade computacional. Atualmente, esse indicador está abaixo de US$ 30 por petahash/dia, um nível que torna máquinas mais antigas, como a série Antminer S19, economicamente inviáveis em regiões com tarifas elétricas industriais padrão.
Essa dinâmica força uma escolha difícil: vender Bitcoin agora, diluir os acionistas emitindo novas ações ou contrair dívidas caras. A maioria está optando pela venda direta do ativo. Como analisamos recentemente sobre a resiliência da recuperação do hashrate, a rede se mantém segura, mas a sustentabilidade econômica dos participantes está sendo testada ao limite.
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Quais são os dados e fundamentos destacados?
A situação atual pode ser visualizada através de métricas on-chain e relatórios financeiros que evidenciam a fragilidade do setor. Os números mostram uma mudança clara de comportamento:
- Volume vendido: Foram liquidados 5.359 BTC em apenas 30 dias, superando a emissão de novas moedas em certos intervalos.
- Queda na Tesouraria: O saldo coletivo dos mineradores públicos caiu 4,44%, restando cerca de 115.335 BTC (avaliados em US$ 7,4 bilhões).
- Ações Específicas: A Riot Platforms vendeu 1.818 BTC, enquanto a Bitdeer liquidou integralmente sua tesouraria para pivotar parte da operação para infraestrutura de Inteligência Artificial (IA).
- Custo de Produção: Modelos indicam que, em tarifas de US$ 0,07/kWh, máquinas populares já operam no vermelho.
Esses dados contrastam com movimentos de outros players globais. Enquanto as mineradoras norte-americanas vendem para cobrir custos, vimos anteriormente que outras entidades, como uma mineradora ligada aos Emirados Árabes, mantinham estratégias de acumulação, aproveitando custos de energia subsidiados. No entanto, no mercado aberto ocidental, a tendência de venda predomina.
Outro fator crítico é a dificuldade de mineração. Recentemente, a dificuldade do Bitcoin subiu cerca de 14,73%, o que significa que é necessário mais poder computacional (e mais energia) para minerar a mesma quantidade de moedas, comprimindo ainda mais as margens de quem não possui equipamentos de última geração.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para o investidor brasileiro, essa ‘sangria’ dos mineradores representa uma pressão de venda constante que pode dificultar ralis explosivos no curto prazo. Quando grandes mineradores despejam milhões de reais em BTC no mercado, eles absorvem a liquidez de compra, criando barreiras de preço. Com o Bitcoin cotado na casa dos R$ 371.000, a volatilidade tende a aumentar se essas vendas continuarem.
No cenário local, isso reforça a importância de monitorar os custos de energia, um tema recorrente no Brasil. Grandes players nacionais também buscam alternativas, como vimos com a Engie avaliando a mineração com excedente solar, o que poderia tornar a operação nacional mais resiliente a esses choques de custo globais.
Para quem investe via B3 (como nos ETFs HASH11 ou BITH11), o momento exige cautela e visão de longo prazo. A estratégia mais prudente continua sendo o preço médio (DCA), evitando tentar acertar o fundo exato. A alavancagem deve ser evitada a todo custo neste cenário, pois mineradores desesperados por caixa podem provocar quedas rápidas para cobrir margens, liquidando traders alavancados antes de qualquer recuperação.
Riscos e o que observar
O principal risco de baixa é que o preço do Bitcoin caia abaixo de suportes críticos (como US$ 60.000), o que tornaria até mesmo as máquinas modernas não lucrativas. Segundo análises da CoinShares, as taxas de transação representam menos de 1% da receita atual, deixando os mineradores totalmente dependentes do subsídio do bloco e do preço do ativo.
Se o preço cair mais, poderemos ver uma “capitulação de mineradores”, onde empresas desligam máquinas em massa, reduzindo o hashrate e potencialmente forçando mais vendas de tesouraria para honrar dívidas. É fundamental observar o próximo ajuste de dificuldade e os relatórios de fluxo de caixa das mineradoras públicas. Conforme dados projetados pela análise de rentabilidade, a linha tênue entre lucro e prejuízo está cada vez mais fina.
Em síntese, os mineradores estão sendo forçados a vender suas reservas para financiar operações em um ambiente de custos elevados e receitas comprimidas. Isso cria um “teto” temporário para o preço do Bitcoin, pois cada alta é aproveitada para gerar caixa. O investidor deve monitorar se o hashrate cairá — sinalizando desligamento de máquinas — ou se o preço do ativo terá força para absorver essa oferta extra sem perder suportes importantes.

