O Mercado Livre, maior empresa de e-commerce da América Latina com capitalização de mercado superior a US$ 80 bilhões (aproximadamente R$ 460 bilhões na cotação atual), anunciou silenciosamente o encerramento do Mercado Coin – seu token de fidelidade lançado em agosto de 2022 no Brasil como um ERC-20 na rede Ethereum, desenvolvido em parceria com a exchange latino-americana Ripio. Segundo comunicado enviado aos usuários via Mercado Pago, o token deixará de funcionar a partir do dia 17 de abril de 2025. Quem ainda detém Mercado Coin tem três caminhos: vender pelo aplicativo, usar como crédito em compras na plataforma, ou simplesmente aguardar a conversão automática para moeda fiduciária local – no Brasil, o real.
A pergunta que domina as mesas de operação é clara: o encerramento do Mercado Coin representa uma retirada estratégica do universo cripto por parte do maior ecossistema de comércio digital da região, ou é simplesmente a troca de uma aposta ruim por uma aposta mais inteligente?
O que está por trás dessa movimentação?
A resposta curta é: volatilidade mata programa de fidelidade. O Mercado Coin nasceu com uma premissa atraente – compre produtos selecionados, ganhe tokens, use-os em compras futuras ou converta em dinheiro. O problema é que tokens com preço flutuante criam uma experiência profundamente incongruente para o consumidor médio: o cashback que você ganhou hoje pode valer metade amanhã, transformando um benefício em fonte de ansiedade.
Esse atrito com o usuário de varejo nunca foi resolvido. O token expandiu para outros mercados latino-americanos após o lançamento no Brasil, mas nunca construiu base de adoção significativa nem mercado secundário líquido fora do próprio ecossistema do Mercado Livre. Viveu e morreu como um experimento – um sistema de pontos de fidelidade com passos extras e uma pitada indesejada de especulação.
Em agosto de 2024, o Mercado Livre deu a resposta definitiva ao problema: lançou o MeliDólar (MUSD), uma stablecoin lastreada no dólar americano, também construída com a Ripio e acessível pelo Mercado Pago. O MeliDólar é garantido por títulos do Tesouro dos EUA e depósitos em dólar – seu preço não oscila. Ele passou a ser o núcleo do programa de fidelidade Meli Plus, distribuído como cashback em compras, negociável no app sem taxas e utilizável como proteção cambial. Para o consumidor brasileiro que assiste ao real perder valor contra o dólar, guardar parte do cashback em MUSD tem utilidade prática real – não é especulação, é proteção.
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O Mercado Livre não está sozinho nessa lição aprendida a duras penas. O Nubank, maior banco digital do Brasil com mais de 100 milhões de clientes, rodou o mesmo experimento com o Nucoin, lançado em 2023 na rede Polygon e distribuído via airdrop para sua base massiva de usuários como token de recompensa e fidelidade. O resultado foi idêntico: o Nucoin colapsou cerca de 97% em valor antes de ser descontinuado, tornando-se símbolo dos riscos de tokens proprietários voláteis em contextos de fidelidade ao consumidor.
Em termos simples: o programa de pontos que virou roleta
Imagine que o Mercado Livre decidisse substituir o cashback em reais do seu cartão de crédito por pontos em moeda própria – mas esses pontos oscilassem de preço como se fossem ações da Petrobras num dia de crise. Você termina o mês com R$ 50 em cashback acumulado, vai usar na semana seguinte, e o valor já caiu para R$ 22. Ou subiu para R$ 90, mas aí você fica com medo de gastar esperando subir mais. O benefício que deveria ser simples virou um problema de gestão financeira.
É exatamente isso que o Mercado Coin representava na prática. O programa de fidelidade mais eficiente do varejo brasileiro é o Pix com desconto: direto, previsível, instantâneo. Quando uma empresa tenta substituir esse mecanismo por um token especulativo, ela cria fricção onde deveria criar conveniência. O cliente médio do Mercado Livre – que usa a plataforma para comprar eletrônicos, roupas e mantimentos – não quer gerenciar risco cambial-cripto no processo de compra.
O MeliDólar resolve exatamente esse paradoxo. Ele é o equivalente a um programa de pontos atrelado ao dólar: você acumula cashback, o valor não desaparece com volatilidade, e você ainda ganha proteção implícita contra a desvalorização do real. É o programa de fidelidade que a Smiles ou o TudoAzul seriam se fossem dolarizados e liquidáveis em segundos. A transição do Mercado Coin para o MeliDólar não é uma saída do cripto – é uma saída da especulação.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
- Data de encerramento: 17 de abril de 2025 – ‘O Prazo Final’
Usuários com Mercado Coin têm até essa data para agir ativamente – vender ou usar como crédito. Após o prazo, a conversão automática para moeda fiduciária local é garantida pela plataforma, distinguindo esse encerramento de falências caóticas de tokens onde investidores perderam tudo sem aviso ou mecanismo de saída. - Duração do experimento: 2 anos e 8 meses – ‘O Ciclo Curto’
O Mercado Coin foi lançado em agosto de 2022 e encerrado em abril de 2025. Esse horizonte revela a velocidade com que grandes fintechs estão dispostas a pivotar quando um produto não gera tração – uma disciplina de alocação de capital que o mercado tende a premiar, não punir. - Capitalização do Mercado Livre: US$ 80 bilhões+ (R$ 460 bilhões+) – ‘O Gigante Regional’
O Mercado Livre é maior do que a Amazon em vários mercados latino-americanos por penetração local. Sua decisão de abandonar o token volátil em favor de stablecoin não é uma curiosidade – é um sinal de mercado com peso suficiente para influenciar como outras fintechs da região estruturarão seus próximos produtos cripto. - Base do Nucoin (Nubank): queda de ~97% antes do encerramento – ‘O Espelho da Falha’
O Nucoin, distribuído para mais de 100 milhões de clientes do Nubank, colapsou quase na totalidade de seu valor antes de ser descontinuado. O padrão é idêntico ao do Mercado Coin: grande empresa, enorme base de usuários, token volátil sem caso de uso sustentável. Dois experimentos paralelos, dois resultados idênticos, uma conclusão clara para o setor. - Modelo do MeliDólar: lastreado em Treasuries e depósitos em USD – ‘A Âncora Estável’
Ao contrário do Mercado Coin, o MeliDólar opera como stablecoin regulatoriamente consciente – lastreado em ativos de baixíssimo risco. Isso o aproxima do modelo de stablecoins reguladas que reguladores como o Banco Central do Brasil e a CVM estão começando a endereçar formalmente, reduzindo o risco de intervenção regulatória que tokens voláteis proprietários carregariam.
Em conjunto, esses dados revelam não um fracasso pontual, mas um padrão estrutural: tokens de fidelidade voláteis são incompatíveis com o comportamento do consumidor de varejo de massa, independentemente do tamanho da plataforma que os distribui.
O que muda na estrutura do mercado?
O encerramento do Mercado Coin e do Nucoin no mesmo ciclo não é coincidência – é a confirmação de que a primeira onda de tokens proprietários de fidelidade chegou ao fim. As duas maiores plataformas financeiras digitais da América Latina tentaram o experimento simultaneamente, com bases de usuários imensas, recursos de marketing e distribuição integrada. Ambas falharam. Isso estabelece um precedente poderoso para qualquer fintech regional que ainda esteja cogitando lançar um token volátil próprio como mecanismo de engajamento.
O que sobrevive é o modelo stablecoin – e o Mercado Livre está posicionado para liderar esse espaço na região. O MeliDólar já opera como infraestrutura do Meli Plus, o programa de fidelidade premium da empresa. À medida que mais consumidores brasileiros e mexicanos buscarem proteção cambial natural contra a desvalorização de suas moedas locais, uma stablecoin acessível dentro de um super-app que já processa pagamentos, crédito e investimentos se torna um produto genuinamente competitivo – não apenas uma curiosidade tecnológica.
Esse movimento também reposiciona o Mercado Pago dentro da disputa mais ampla pelo super-app financeiro na América Latina. O Nubank detém a maior base de clientes bancários digitais do Brasil, mas seu experimento cripto fracassou. O Mercado Pago, por sua vez, mantém serviços ativos de compra, venda e custódia de criptomoedas, e agora adiciona uma stablecoin dolarizada ao portfólio. A convergência entre fintech tradicional e cripto está acontecendo – mas pelo caminho das stablecoins reguladas, não dos tokens especulativos.
Para exchanges brasileiras como Mercado Bitcoin e Foxbit, o sinal é ambíguo. Por um lado, o fracasso dos tokens proprietários valida o modelo de exchange especializada – plataformas com liquidez real, múltiplos ativos e infraestrutura de custódia independente. Por outro, se o Mercado Pago conseguir oferecer uma experiência cripto razoável dentro de um app que 60 milhões de brasileiros já usam para pagar contas, a pressão competitiva sobre exchanges de varejo se intensifica. O terreno de batalha muda: de token proprietário para conveniência de acesso.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para o investidor brasileiro, o encerramento do Mercado Coin levanta três questões práticas imediatas. A primeira é operacional: se você ainda detém Mercado Coin, o prazo de 17 de abril é real e deve ser observado. A conversão automática para real ocorrerá independentemente de ação, mas vender ou usar o saldo antes evita qualquer desconto operacional que o processo automático possa aplicar.
A segunda questão é tributária. Qualquer conversão de criptoativo para moeda fiduciária – mesmo no contexto de um programa de fidelidade – pode ser interpretada como evento de alienação para fins da Instrução Normativa 1.888 e das regras da Lei 14.754/2023. Se o valor convertido superar R$ 35 mil mensais, a operação precisa ser reportada à Receita Federal via GCAP, com alíquotas progressivas de 15% a 22,5% sobre o ganho de capital eventualmente apurado. Para a maioria dos usuários com saldos residuais de cashback, o volume provavelmente ficará abaixo do limite de isenção – mas vale verificar o extrato.
A terceira questão é estratégica: o MeliDólar interessa ao investidor brasileiro como produto? O Efeito BRL é real aqui – qualquer stablecoin dolarizada dentro de um app brasileiro combina exposição ao dólar com a conveniência operacional do real. Para quem já usa o Mercado Pago no dia a dia, acumular cashback em MUSD e mantê-lo como reserva cambial é uma forma de dolarização parcial acessível sem precisar de conta no exterior ou de exchange especializada. Não substitui uma posição em Bitcoin ou em ETFs como o HASH11 negociado na B3, mas complementa uma estratégia de diversificação cambial para o investidor de varejo.
Uma recomendação prática: utilize o MeliDólar como reserva de conveniência, não como veículo de investimento principal. Para exposição estrutural ao dólar e ao mercado cripto, o modelo de aportes regulares – DCA, ou Custo Médio em Dólar – em ativos líquidos com custódia independente segue sendo a abordagem mais robusta. E evite qualquer uso de alavancagem em produtos cripto dentro de super-apps: a liquidez e as condições de execução nesses ambientes raramente favorecem o usuário de varejo em momentos de estresse de mercado.
Riscos e o que observar
‘Risco Regulatório da Stablecoin Corporativa’: O Banco Central do Brasil está em processo ativo de regulamentação de stablecoins no país, com discussões sobre requisitos de reserva, custódia e supervisão ainda em aberto. O MeliDólar, lastreado em Treasuries americanos e depósitos em dólar, pode ser classificado de formas diferentes dependendo do arcabouço final – o que expõe o produto a potencial necessidade de reestruturação ou restrição de acesso ao consumidor brasileiro.
‘Risco de Concentração de Ecossistema’: À medida que o Mercado Pago consolida serviços de pagamento, crédito, câmbio, cripto e stablecoin em uma única plataforma, o usuário que migra completamente para esse ecossistema assume risco de concentração operacional. Qualquer interrupção técnica, mudança de política ou investigação regulatória sobre o Mercado Livre afeta simultaneamente todas essas posições – diferente de ter ativos distribuídos entre custodiantes independentes.
‘Risco de Adoção Insuficiente do MeliDólar’: A transição do Mercado Coin para o MeliDólar é uma aposta estratégica, não uma garantia. Se o MeliDólar não conseguir superar a inércia de uso – se os consumidores simplesmente ignorarem o saldo em MUSD e continuarem preferindo cashback em reais – o Mercado Livre poderá enfrentar pressão para descontinuar também a stablecoin, comprometendo a credibilidade da empresa como player cripto regional.
O gatilho a observar nas próximas semanas é o volume de transações reportado com o MeliDólar nos resultados trimestrais do Mercado Livre – previstos para o segundo trimestre de 2025. Se a empresa divulgar métricas de adoção do MUSD crescentes, especialmente em Brasil e México, o mercado interpretará a transição como bem-sucedida e o modelo stablecoin corporativa ganhará legitimidade para replicação regional. Se os resultados mostrarem silêncio sobre o MeliDólar ou métricas de adoção decepcionantes, o experimento cripto do Mercado Livre poderá ser reclassificado como encerrado – não transformado. Até lá, paciência é o único ativo que não desvaloriza.

