Os ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram uma entrada líquida de US$ 506,5 milhões (aproximadamente R$ 2,94 bilhões) na quarta-feira, marcando o maior volume diário de aportes nas últimas três semanas. O movimento, liderado pelo fundo da BlackRock (IBIT), ocorre em um momento crucial para o mercado, sugerindo que o apetite institucional pode estar retornando após um período de incerteza e saídas de capital.
Este fluxo positivo contraria a tendência recente de aversão ao risco, onde investidores institucionais vinham reduzindo posições diante da volatilidade macroeconômica. Com o Bitcoin negociado em patamares elevados, a retomada das compras pelos grandes emissores sinaliza uma tentativa de estabilização do preço, que vinha sofrendo pressão vendedora consistente desde o início do ano.
O que explica a movimentação atual?
Em termos simples, o mercado está testemunhando uma mudança tática por parte dos investidores institucionais. Após semanas de realização de lucros e cautela — conhecidas no jargão de mercado como de-risking —, os grandes gestores parecem ter identificado um fundo local de preço atraente para reacumulação. O analista Vincent Liu, da Kronos Research, descreve esse movimento como uma transição para uma “acumulação cautelosa”, indicando que, embora o medo não tenha desaparecido, o capital inteligente volta a enxergar valor nos níveis atuais.
Essa dinâmica reforça o papel dos fundos negociados em bolsa como o principal catalisador institucional para o preço do Bitcoin neste ciclo. Diferente do investidor de varejo, que tende a reagir emocionalmente às quedas, os emissores de ETFs e seus clientes institucionais utilizam esses recuos para ajustar o preço médio de entrada, fornecendo liquidez necessária para estancar sangrias mais profundas no mercado à vista.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
Os números apresentados pela plataforma SoSoValue revelam uma concentração significativa de capital nos maiores players do setor, validando a tese de que a confiança está retornando aos poucos. Os destaques incluem:
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- Aportes Totais: US$ 506,5 milhões (aprox. R$ 2,94 bilhões) — o maior fluxo diário positivo em três semanas, revertendo a tendência de saídas que dominou o mês anterior.
- Dominância da BlackRock: O fundo IBIT captou sozinho US$ 297,4 milhões (aprox. R$ 1,72 bilhão), reafirmando sua posição de liderança e preferência entre os alocadores de grande porte.
- Diversificação em Altcoins: Não foi apenas o Bitcoin que atraiu capital. ETFs de Ethereum registraram entradas de US$ 157,1 milhões (aprox. R$ 911 milhões), enquanto os de Solana somaram US$ 30,9 milhões (aprox. R$ 179 milhões), o maior valor para a SOL desde dezembro de 2025.
- Sentimento de Mercado: O Índice de Medo e Ganância (Fear and Greed Index) subiu para 11. Embora seja uma melhoria em relação ao nível 5 registrado anteriormente, o mercado ainda permanece na zona de “Medo Extremo”.
É importante notar o contraste com o comportamento recente. Dados anteriores mostravam que detentores venderam grandes quantidades de BTC via ETF no último trimestre, totalizando bilhões em saídas. A ausência de saídas líquidas (outflows) em qualquer um dos ETFs na quarta-feira é um dado técnico relevante, sugerindo exaustão da pressão vendedora imediata.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para o investidor brasileiro, a retomada dos fluxos em Wall Street tem reflexos diretos na B3 e nas corretoras locais. Quando gigantes como BlackRock e Fidelity aumentam suas posições, a liquidez global do ativo melhora, tendendo a sustentar ou elevar o preço do Bitcoin pareado ao Real. Investidores expostos a ETFs listados no Brasil, como o IBIT39 (BDR do ETF da BlackRock), BITH11 ou HASH11, podem observar uma valorização de suas cotas, impulsionada tanto pela alta do ativo objeto quanto pela dinâmica cambial.
O cenário atual reforça a importância da estratégia de preço médio (DCA). Tentar acertar o fundo exato (timing the market) é arriscado, especialmente quando o índice de sentimento ainda aponta “medo extremo”. A análise técnica sugere que o suporte atual foi defendido com sucesso, conforme apontado na análise do Bitcoin Hoje de 25/02, onde os fluxos de ETF funcionaram como uma barreira de consolidação.
No entanto, o investidor deve evitar a alavancagem excessiva neste momento. Embora os fluxos sejam positivos, o mercado brasileiro é sensível à volatilidade do câmbio. Uma valorização do Real frente ao Dólar poderia mitigar os ganhos nominais do Bitcoin em nossa moeda, mesmo com a alta do ativo em dólares.
Riscos e o que observar
Apesar do otimismo com os influxos, o cenário exige cautela. Um ponto de atenção é a rotação de capital. Instituições nem sempre são leais a um único ativo; movimentos recentes mostram que entidades acadêmicas e fundos, como visto quando Harvard reduziu exposição em Bitcoin para investir em ETFs de Ethereum, podem diluir a demanda exclusiva pelo BTC em favor de altcoins com beta mais alto.
Outro fator a monitorar é o fim do padrão de vendas conhecido como “despejo das 10h da manhã” (10 a.m. dump), frequentemente associado à trading firm Jane Street e suas operações de arbitragem. Analistas sugerem que processos legais recentes contra a firma podem ter pausado esse padrão, liberando o preço para subir. Se essa pressão de venda estrutural de fato cessou, os influxos atuais podem ter um impacto mais duradouro no preço do que os vistos nos meses anteriores. Fique atento aos dados de fluxo da próxima semana para confirmar se a tendência se sustenta.
Em síntese, os US$ 506 milhões em entradas representam um sinal vital de vida institucional, mas o mercado ainda caminha sobre uma linha tênue. A confirmação de um rali sustentável dependerá da manutenção desses fluxos positivos e da superação das resistências macroeconômicas nos próximos dias.

