A Circle, emissora da segunda maior stablecoin do mundo (USDC), enfrentou um dia de extrema turbulência nesta terça-feira, vendo suas ações despencarem 20% em meio a um cenário regulatório cada vez mais hostil e movimentos agressivos da concorrência. Negociadas sob o ticker (NASDAQ: CRCL), as ações da empresa recuaram para a marca de US$ 100 (aproximadamente R$ 600 na cotação atual), pressionadas por propostas legislativas nos Estados Unidos que ameaçam proibir o pagamento de recompensas (yields) sobre saldos de stablecoins. O movimento de venda foi exacerbado por um relatório de analistas da Mizuho e pela notícia de que sua principal rival, a Tether, está avançando para auditorias realizadas por uma das ‘Big Four’, corroendo o diferencial competitivo de transparência que a Circle historicamente detinha.
A pergunta que domina as mesas de operação é clara: estamos presenciando apenas um ajuste regulatório pontual ou o fim do modelo de negócios que transformou stablecoins em instrumentos de renda passiva? Enquanto o mercado digere o impacto do ‘Clarity Act’ e a pressão dos grandes bancos, investidores questionam se a retenção de USDC deixará de ser uma estratégia de rendimento para se tornar meramente um mecanismo de liquidez. Como analisamos anteriormente no CriptoFácil sobre os riscos estruturais em protocolos de stablecoins, quando a confiança no modelo de receita é abalada, a reação do mercado tende a ser imediata e severa.
Contexto do mercado
Para entender a gravidade dessa queda, é preciso olhar para a estratégia de longo prazo da Circle. Desde o lançamento do USDC em 2018, a empresa se posicionou como a ‘alternativa adulta’ e regulada ao domínio da Tether (USDT), que frequentemente enfrentava críticas sobre a opacidade de suas reservas. A Circle apostou todas as suas fichas na conformidade e na transparência, visando uma abertura de capital (IPO) e a integração total com o sistema bancário tradicional. No entanto, o diferencial de ‘ser a mais segura’ está sendo desafiado agora que a própria Tether anunciou movimentos para contratar uma auditoria das ‘Big Four’ (KPMG, Deloitte, PwC ou EY), nivelando o campo de jogo.
Paralelamente, o ambiente legislativo em Washington mudou. O que antes parecia ser um caminho aberto para a regularização das stablecoins transformou-se em um cabo de guerra com o setor bancário tradicional. Bancos comerciais argumentam que, se stablecoins puderem pagar juros (yields) aos detentores, elas atuarão como depósitos bancários não regulados, drenando capital das instituições que fornecem crédito para a economia real. A proposta bipartidária dos senadores Angela Alsobrooks e Thom Tillis, que circula nos bastidores, visa justamente restringir essas recompensas.
Este cenário cria um paradoxo: a regulação que a Circle tanto pediu pode vir acompanhada de restrições que matam seu principal atrativo para o varejo e para plataformas parceiras, como a Coinbase. Conforme analisamos anteriormente no CriptoFácil sobre a Metacomp captando milhões para plataformas de stablecoins, o interesse institucional no setor continua alto, mas as regras do jogo estão sendo reescritas de forma a favorecer modelos que não compitam diretamente com a conta poupança dos grandes bancos.
Confira nossas sugestões de Pre-Sales para investir agora
O que está por trás dessa movimentação?
Em termos simples, imagine que a Circle opere como uma empresa que emite “Vales-Alimentação Modernos” (o USDC). Até ontem, a grande vantagem desses vales não era apenas a facilidade de uso, mas o fato de que as lojas (exchanges como a Coinbase) ofereciam um “bônus” ou “cashback” mensal apenas para você manter o saldo no cartão. Você deixava R$ 1.000 lá e, no final do mês, ganhava R$ 50 sem fazer nada. Isso atraía milhões de usuários que viam o vale não só como dinheiro, mas como um investimento melhor que a poupança.
Agora, o governo (representado pelos senadores dos EUA) e os grandes bancos (concorrentes que guardam o dinheiro real) estão dizendo: “Esperem um pouco. Se esse vale paga rendimento, ele não é um vale, é uma conta bancária disfarçada, mas sem pagar as taxas e seguros que os bancos pagam”. A nova regra proposta é como uma lei que proíbe as lojas de darem esse bônus mensal. Se o vale passa a valer estritamente o que está impresso nele, sem gerar lucro passivo, muitos usuários podem perder o interesse em mantê-lo acumulado, preferindo voltar para o dinheiro tradicional ou outros investimentos.
Para piorar a situação da empresa de vales, o concorrente que sempre foi visto como “bairro perigoso” (a Tether) anunciou que vai contratar a melhor empresa de segurança da cidade para auditar seus cofres. Ou seja, a Circle está perdendo o diferencial de segurança ao mesmo tempo em que pode ser proibida de oferecer o incentivo financeiro. O mercado está precificando que, sem os “bônus”, menos pessoas vão querer segurar esses vales por longo prazo.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
Conforme reportado pelo The Block e detalhado nas notas dos analistas da Mizuho, os números que justificam a reavaliação dramática do ativo incluem:
- Queda nas Ações (-20%) — “O Choque de Realidade”: As ações da Circle (NASDAQ: CRCL) recuaram para a faixa de US$ 100 (aproximadamente R$ 600), refletindo o medo imediato de que a receita futura seja severamente impactada pela proibição de recompensas.
- Receita da Coinbase em Risco (~20%) — “O Efeito Dominó”: A Coinbase, parceira estratégica da Circle, também caiu quase 10%. Dados apontam que cerca de 20% da receita da exchange vem do ecossistema USDC, grande parte atrelada a programas de recompensas que agora estão na mira dos reguladores.
- Reservas de Rendimento (US$ 1,68 bilhão) — “A Fonte Secando”: Em 2024, a Circle gerou US$ 1,68 bilhão (aproximadamente R$ 9,8 bilhões) em receitas, majoritariamente vindas dos juros sobre as reservas que lastreiam o USDC (Treasuries). Se a atratividade do USDC cair e a circulação diminuir, essa receita de juros sobre as reservas encolhe proporcionalmente.
- Exigências do Clarity Act — “O Freio de Mão”: O texto legislativo propõe proibir pagamentos de rendimentos para “saldos passivos” e restringir o acesso a dados de transação, dificultando o cálculo de incentivos por terceiros.
Em síntese, os dados mostram uma tempestade perfeita onde a vantagem competitiva regulatória da Circle se tornou sua maior vulnerabilidade, pois ela é a mais exposta às novas leis americanas.
O que muda na estrutura do mercado?
A queda da Circle sinaliza uma mudança tectônica na estrutura do mercado de criptoativos: o fim da era da “renda passiva fácil” via stablecoins centralizadas em jurisdições reguladas. Enquanto a Circle tenta jogar pelas regras e é punida por isso, vemos uma fragmentação do setor. De um lado, emissores offshore como a Tether tentam limpar sua imagem com auditorias de peso para capturar os investidores institucionais que poderiam fugir do risco regulatório dos EUA. Do outro, gigantes das finanças tradicionais entram no jogo aproveitando sua infraestrutura bancária já estabelecida.
Como analisamos anteriormente no CriptoFácil sobre a expansão do PayPal e sua stablecoin PYUSD, a entrada de conglomerados de pagamentos aumenta a pressão. Se a legislação impedir que empresas de cripto “nativas” ofereçam rendimentos, os bancos e fintechs tradicionais ganham um fosso defensivo enorme, pois eles já possuem licenças bancárias para oferecer produtos remunerados. A Circle corre o risco de ser espremida entre a eficiência não regulada do offshore e a blindagem regulatória dos grandes bancos.
Além disso, o movimento da Tether de congelar carteiras e buscar auditoria “Big Four” mostra que a maior stablecoin do mundo não vai ceder espaço facilmente. A estratégia da Tether de se adequar minimamente às exigências globais de combate à lavagem de dinheiro, enquanto mantém sua sede fora dos EUA, pode se provar mais resiliente no curto prazo do que a abordagem 100% compliant da Circle, que a coloca na linha de tiro direta do Congresso americano.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para o investidor brasileiro, habituado a usar stablecoins como uma forma de dolarizar o patrimônio e buscar rendimentos acima da inflação, as notícias trazem um alerta importante sobre a viabilidade futura desses ganhos.
Primeiramente, a usabilidade e rendimento estão em cheque. Muitos brasileiros mantêm USDC em exchanges internacionais ou plataformas de DeFi buscando APYs (rendimentos anuais) de 5% a 10% em dólar. Se a nova legislação americana for aprovada conforme o rascunho, plataformas como a Coinbase e outras que operam com liquidez americana podem ser forçadas a encerrar esses programas de recompensa para usuários globais, ou restringi-los severamente. O USDC continuará valendo 1 dólar, mas pode deixar de ser um ativo produtivo.
Em termos de preço e conversão, a paridade do USDC/BRL não deve ser afetada diretamente — 1 USDC continuará buscando a paridade com 1 USD. No entanto, a volatilidade nas ações da empresa emissora (Circle) adiciona um risco de contraparte que, embora remoto, deve ser monitorado. Se a receita da empresa cair drasticamente, sua capacidade de expansão e operação pode sofrer.
No aspecto tributário, é vital lembrar das obrigações locais. A posse de stablecoins como USDC é considerada ativo financeiro no exterior ou criptoativo, dependendo de onde está custodiado. Pela Lei 14.754, sancionada recentemente, a tributação sobre rendimentos no exterior é de 15% flat. Já para vendas mensais de criptoativos em exchanges nacionais ou sem estrutura offshore definida, muitos investidores ainda operam sob a lógica da isenção de até R$ 35.000 (para ganho de capital simples em alienação), mas a Receita Federal tem apertado o cerco com a IN 1.888. Se você recebe “rewards” ou rendimentos em USDC, isso deve ser declarado. A possível extinção desses rewards simplificaria a declaração, mas reduziria o lucro.
A recomendação estratégica é diversificar. Não mantenha todo o seu caixa em uma única stablecoin, especialmente em momentos de definição regulatória.
Riscos e o que observar
- Aprovação do Clarity Act — “A Canetada Final”: Se o projeto de lei avançar sem alterações, proibindo explicitamente qualquer tipo de yield passivo, o modelo de negócios de várias plataformas de lending e exchanges baseadas em USDC terá que ser reinventado do zero.
- Auditoria da Tether — “O Xeque-Mate da Concorrência”: Se a Tether conseguir, de fato, uma auditoria completa de uma Big Four sem ressalvas graves, o principal argumento de venda da Circle (segurança superior) evapora, o que pode levar a uma migração de liquidez do USDC para o USDT.
- Volatilidade da Coinbase — “O Risco Sistêmico”: Sendo a principal parceira da Circle, qualquer deterioração financeira na Coinbase afeta diretamente a liquidez e a utilidade do USDC no varejo.
O gatilho principal a ser observado é a publicação do texto final da proposta dos senadores Alsobrooks e Tillis e a reação das outras grandes exchanges (como Binance e Kraken) sobre a continuidade dos programas de recompensas. Até que Washington defina as regras do jogo, paciência é o único ativo que não desvaloriza.

