A Bitwise, uma das gestoras de ativos digitais mais respeitadas do mercado, emitiu uma defesa contundente da Circle Internet Group nesta semana, projetando que a emissora da stablecoin USDC pode atingir um valor de mercado de US$ 75 bilhões (aproximadamente R$ 435 bilhões na cotação atual) até 2030. A análise, liderada pelo Diretor de Investimentos Matt Hougan, surge como um contraponto direto ao pânico recente dos investidores, que derrubou as ações da empresa em cerca de 20% após notícias sobre restrições regulatórias nos Estados Unidos.
O movimento de venda foi desencadeado por preocupações de que o “Clarity Act” — legislação pendente no Congresso americano — possa limitar os incentivos e recompensas oferecidos aos detentores de stablecoins, afetando a atratividade do USDC. No entanto, a tese da Bitwise ignora o ruído de curto prazo e foca na infraestrutura, apoiando-se em projeções de que o mercado total de stablecoins pode chegar a US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 11 trilhões) na próxima década. A pergunta que domina as mesas de operação é clara: a reação do mercado foi um ajuste racional aos riscos regulatórios ou uma oportunidade de compra gerada por medo infundado?
O que explica a movimentação atual?
A volatilidade recente nas ações da Circle, que despencaram cerca de 20% na terça-feira, está diretamente ligada aos rascunhos do Clarity Act nos Estados Unidos. O texto sugere limitações severas na capacidade das emissoras de oferecer recompensas (yields) pelo simples ato de manter stablecoins (holding) ou utilizá-las em certas plataformas. Para o mercado, isso soou como um alarme: em um ambiente de juros altos, a capacidade de repassar rendimentos é um diferencial competitivo crucial.
Como analisamos anteriormente no CriptoFácil sobre a queda da Circle, a incerteza regulatória criou um vácuo de confiança momentâneo. Enquanto isso, a principal concorrente, Tether (emissora do USDT), anunciou a contratação de uma auditora do grupo “Big Four” para realizar sua primeira auditoria completa de reservas. Esse movimento da Tether visa capturar justamente a narrativa de conformidade e segurança institucional que era, até então, o principal trunfo da Circle.
Apesar dessa pressão vendedora, as ações da Circle (CRCL) mostraram resiliência, recuperando cerca de 3% na quarta-feira e sendo negociadas na faixa de US$ 104,44 (aproximadamente R$ 605). O relatório da Bitwise entra nesse contexto para acalmar os ânimos institucionais, argumentando que a receita de juros repassada ao usuário nunca foi o principal motor de adoção das stablecoins, mas sim sua utilidade transacional.
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O que está por trás dessa movimentação?
Em termos simples, imagine que a Circle é a concessionária de uma rodovia ultramoderna que liga as maiores economias do mundo digital. Até hoje, para atrair motoristas (usuários), a concessionária ou seus parceiros ofereciam um “cafézinho grátis” (recompensas/yields) para quem usasse a estrada. A nova lei (Clarity Act) ameaça proibir esse cafézinho, alegando que ele compete deslealmente com os restaurantes da região (bancos tradicionais).
O mercado, focado no curto prazo, vendeu as ações da concessionária achando que, sem o café grátis, os carros parariam de vir. A tese da Bitwise, no entanto, é diferente: eles argumentam que os motoristas não usam a rodovia pelo café, mas porque ela é a única forma rápida e segura de transportar valor globalmente. Eles projetam que o tráfego nessa estrada vai triplicar nos próximos anos, independentemente das cortesias oferecidas no pedágio.
Para a Bitwise, a Circle já venceu a fase de provar que a estrada funciona. Agora, o valor virá do volume massivo de caminhões (instituições financeiras, pagamentos transfronteiriços) que pagarão o pedágio, tornando a proibição do “cafézinho” um detalhe irrelevante no balanço final de 2030.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
O relatório da Bitwise e os dados recentes da Circle apontam para uma divergência clara entre o preço da tela e os fundamentos do negócio. Os principais pontos levantados incluem:
- Valuation Alvo: US$ 75 bilhões (R$ 435 bilhões) — “A Visão de Longo Prazo”
A Bitwise baseia essa cifra na captura de participação de mercado em um ecossistema de stablecoins projetado para valer US$ 1,9 trilhão até 2030 (dados do Citigroup), ignorando a volatilidade regulatória atual. - Receita Trimestral: US$ 770 milhões (R$ 4,46 bilhões) — “A Máquina de Caixa”
No quarto trimestre de 2025, a Circle reportou um aumento de 77% na receita em comparação ao ano anterior. Mais importante, o lucro líquido saltou de irrisórios US$ 4 milhões para sólidos US$ 133 milhões (R$ 771 milhões), provando que a operação é altamente lucrativa. - Dependência de Juros: 95% da Receita — “O Calcanhar de Aquiles”
A quase totalidade da receita atual vem de juros sobre títulos do Tesouro americano (T-bills). Embora lucrativo, isso expõe a empresa a riscos se as taxas de juros (Fed Funds Rate) caírem drasticamente, o que exige a diversificação para outras linhas de receita projetadas para 2026. - Dominância de Mercado: 93,2% em Blockchain — “O Fosso Econômico”
Como analisamos anteriormente no CriptoFácil sobre o domínio das stablecoins, esses ativos já capturam a vasta maioria do volume de transações em blockchains públicas, superando o próprio Bitcoin em contagem de transações, o que valida a tese de utilidade da Bitwise.
Esses dados sugerem que, a menos que a legislação proíba o uso do USDC (o que não é o caso), a estrutura de capital da Circle permanece robusta para suportar choques temporários.
O que muda na estrutura do mercado?
A defesa pública da Bitwise sinaliza que o “dinheiro inteligente” não está disposto a abandonar a tese das stablecoins reguladas, mesmo diante de ventos contrários em Washington. Historicamente, inovações financeiras que ganham escala global tendem a proteger sua liderança, como observou Matt Hougan ao descartar a ideia de que bancos tradicionais como Wells Fargo ou Bank of America engoliriam facilmente a fatia de mercado da Circle.
Além disso, o movimento cria uma bifurcação interessante. De um lado, investidores de varejo e traders de curto prazo reagem notícias legislativas vendendo o ativo. Do outro, gestoras de grande porte aproveitam os preços descontados para montar posições estruturais. Como analisamos anteriormente no CriptoFácil, a Ark Invest também realizou movimentos de compra após quedas recentes, reforçando que os grandes players veem a Circle como uma peça de infraestrutura, e não apenas uma empresa de crypto.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para você, investidor brasileiro, essa disputa de narrativas traz implicações diretas, tanto para quem segura USDC como forma de dolarização quanto para quem busca exposição ao capital da empresa.
Primeiro, a segurança do USDC como ativo: a projeção da Bitwise e o lucro de US$ 133 milhões da Circle reforçam que a empresa tem caixa para manter a paridade do dólar, reduzindo o risco de despeg (perda de paridade). Para quem usa USDC na carteira para fugir da volatilidade do Real, os fundamentos da emissora continuam sólidos.
Segundo, a oportunidade de investimento: se você tem acesso ao mercado acionário americano (via contas internacionais ou BDRs, se disponíveis), a queda recente das ações (CRCL) pode representar um ponto de entrada interessante para uma tese de longo prazo, seguindo a lógica do DCA (Preço Médio). No entanto, lembre-se das obrigações fiscais: ganhos de capital com ações no exterior seguem as regras da Lei 14.754/2023 (taxação de 15% sobre lucros), enquanto a posse do token USDC deve ser declarada conforme a Instrução Normativa 1.888 da Receita Federal.
Por fim, o “Efeito BRL”: com o dólar oscilando no Brasil, manter ativos atrelados à moeda forte ou investir em empresas que geram receita em dólar (como a Circle) continua sendo uma das estratégias mais eficazes de proteção patrimonial local.
Riscos e o que observar
Apesar do otimismo da Bitwise, o investidor não deve ignorar os alertas no painel. A projeção de US$ 75 bilhões depende de uma execução perfeita em um campo minado regulatório.
- O Texto Final do Clarity Act: Se a versão final da lei for draconiana ao ponto de inviabilizar o modelo de negócios da Circle, a tese de crescimento cai por terra.
- Taxas de Juros do Fed: Com 95% da receita vindo de juros, cortes agressivos pelo Federal Reserve poderiam secar a fonte de lucro da empresa antes que ela diversifique suas receitas.
- Avanço da Tether: A auditoria “Big Four” da Tether pode retirar o prêmio de “segurança” que o USDC sempre cobrou do mercado.
O gatilho a ser observado nos próximos meses é a divulgação da receita de serviços (“other revenue”) da Circle; se ela não crescer conforme projetado (meta de US$ 150-170 milhões), a dependência dos juros pode se tornar tóxica. Até lá, paciência é o único ativo que não desvaloriza.

