A Chainalysis publicou um relatório projetando que o volume anual transacionado em stablecoins pode atingir US$ 1,5 quatrilhão (aproximadamente R$ 8,7 quatrilhões na cotação atual de R$ 5,80 por dólar) até 2035 – número que colocaria as stablecoins à frente de redes de pagamento tradicionais como Visa e Mastercard combinadas, e que supera em mais de 50 vezes o volume de US$ 28 trilhões registrado em 2025, quando o crescimento composto do setor atingiu 133% ao ano desde 2023. O mercado total de stablecoins já ultrapassa US$ 317 bilhões (cerca de R$ 1,84 trilhão) em capitalização, segundo dados da DefiLlama, e a projeção da Chainalysis descreve dois catalisadores estruturais – a maior transferência intergeracional de riqueza da história e a adoção massiva em pontos de venda – como os motores que podem mais do que dobrar a trajetória orgânica de crescimento.
A pergunta que domina as mesas de operação é clara: a projeção de US$ 1,5 quatrilhão é um reflexo estrutural do que stablecoins se tornaram como infraestrutura financeira – ou é um exercício especulativo de extrapolação que superestima a velocidade de adoção e ignora os obstáculos regulatórios, tecnológicos e competitivos que ainda estão por vir?
Contexto do mercado
O mercado de stablecoins não surgiu como uma classe de ativos: surgiu como uma solução de engenharia para um problema de volatilidade. Quando a Tether lançou o USDT em 2014, o objetivo era simples – criar uma âncora em dólar dentro do ecossistema cripto para que traders pudessem sair de posições voláteis sem precisar voltar ao sistema bancário tradicional. O que ninguém previa é que essa solução tática se tornaria a espinha dorsal de toda a indústria, processando mais volume do que qualquer exchange centralizada e servindo como unidade de conta para DeFi, remessas internacionais e liquidações institucionais.
O salto qualitativo ocorreu entre 2020 e 2023, quando o DeFi transformou stablecoins de instrumento de liquidez em ativo produtivo – USDC e DAI passaram a render entre 4% e 12% em protocolos como Aave e Compound, atraindo capital que antes ficava parado em exchanges. Em 2025, o volume ajustado – excluindo ruído de trading e transações de arbitragem – chegou a US$ 28 trilhões, uma cifra que começa a rivalizar com as redes de cartão. Visa processou aproximadamente US$ 13 trilhões e Mastercard cerca de US$ 9 trilhões no mesmo período, totalizando US$ 22 trilhões.
O ambiente regulatório americano mudou de patamar com a aprovação da GENIUS Act, que o presidente Donald Trump sancionou no ano passado e que estabelece o primeiro framework federal para emissores de stablecoins nos EUA. Como analisamos anteriormente no CriptoFácil ao cobrir o impacto da GENIUS Act na supervisão de stablecoins, a lei cria requisitos de reserva, auditoria e segregação de ativos que elevam o padrão de conformidade – e, ao mesmo tempo, conferem legitimidade institucional que abre portas para bancos, gestoras e processadoras de pagamento que antes evitavam o setor por risco regulatório. O movimento do mercado confirmou essa leitura: a Stripe adquiriu a plataforma de stablecoins Bridge por US$ 1,1 bilhão (R$ 6,4 bilhões), e a Mastercard anunciou a aquisição da BVNK por até US$ 1,8 bilhão (R$ 10,4 bilhões), sinalizando que as redes de pagamento tradicionais não querem competir contra stablecoins – querem ser a infraestrutura delas.
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O CriptoFácil avalia que o relatório da Chainalysis se distingue de projeções anteriores por um motivo central: ele não se baseia apenas em crescimento de supply ou capitalização de mercado, mas em volume transacionado real – uma métrica que captura velocidade de circulação, não apenas acúmulo. Isso muda a natureza da análise e aproxima o debate de stablecoins do debate sobre infraestrutura financeira, não apenas sobre reserva de valor.
Em termos simples, imagine
Imagine que o Pix – que processou em torno de R$ 27 trilhões em transações em 2024 segundo o Banco Central do Brasil – de repente multiplicasse seu volume por 320 e passasse a ser utilizado não apenas no Brasil, mas em qualquer país do mundo, por qualquer pessoa com um celular, sem precisar de conta bancária. Essa é a escala que a projeção da Chainalysis descreve para stablecoins até 2035.
Mas há uma diferença conceitual fundamental entre o supply e o volume transacionado que precisa ser entendida. O supply de stablecoins – os US$ 317 bilhões em circulação hoje – é como o total de reais em conta corrente no Brasil: é o saldo parado. O volume transacionado é quanto desse dinheiro circula, quantas vezes por dia, entre quantas mãos. Uma stablecoin pode ser usada dez, cem, mil vezes por ano – e cada uso conta como volume. Quando a Chainalysis fala em US$ 1,5 quatrilhão em volume, ela está falando em circulação intensa de um supply que pode chegar a US$ 2 trilhões projetados pelo Standard Chartered para 2028.
A analogia mais precisa para o investidor brasileiro é a diferença entre o saldo do Tesouro Direto e o volume de negociações na B3. O Tesouro Direto tem um saldo total de cerca de R$ 130 bilhões – mas a B3 processa muito mais do que isso em volume anual porque cada real pode ser negociado múltiplas vezes. Stablecoins com alta velocidade de circulação funcionam da mesma forma: o supply é o estoque, o volume é o fluxo.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
- ‘O Piso Orgânico’ – Mesmo sem nenhum catalisador adicional além da trajetória atual de crescimento, a Chainalysis projeta que o volume ajustado de stablecoins atingiria US$ 719 trilhões (R$ 4,17 quatrilhões) até 2035. Esse número já seria maior do que qualquer rede de pagamentos tradicional existente e deriva exclusivamente da extrapolação da taxa composta de crescimento atual de 133% ao ano desde 2023.
- ‘A Herança dos Millennials’ – Entre 2028 e 2048, uma transferência intergeracional de riqueza estimada em US$ 100 trilhões (R$ 580 trilhões) passará das mãos dos Baby Boomers para Millennials e Geração Z – e quase metade dessas gerações já teve ou ainda mantém exposição a criptoativos, segundo pesquisa da Gemini de 2025 citada no relatório. A Chainalysis calcula que esse fenômeno demográfico isolado poderia injetar US$ 508 trilhões adicionais em volume anual de stablecoins até 2035.
- ‘O Caixa do Mercado’ – A penetração de stablecoins em pontos de venda físicos e digitais representa o segundo grande catalisador, com potencial de adicionar US$ 232 trilhões anuais ao volume. Isso pressupõe que stablecoins se tornem um meio de pagamento cotidiano para comércio eletrônico, transferências internacionais de trabalhadores e pagamentos B2B – algo que as aquisições da Stripe e Mastercard sugerem estar em curso.
- ‘A Corrida com o Cartão’ – Em 2025, stablecoins processaram US$ 28 trilhões em volume econômico real (R$ 162 trilhões), crescendo a uma taxa composta de 133% ao ano desde 2023. Nesse ritmo, a Chainalysis projeta que o volume de stablecoins igualará a soma de Visa e Mastercard – US$ 22 trilhões combinados – entre 2031 e 2039, antes de superá-los em escala.
- ‘O Termômetro Atual’ – A capitalização total de stablecoins está em US$ 317 bilhões (R$ 1,84 trilhão) segundo a DefiLlama, com o Standard Chartered projetando expansão para US$ 2 trilhões (R$ 11,6 trilhões) até 2028 – crescimento de 530% em supply que precisará ser acompanhado por infraestrutura proporcional de liquidação, custódia e compliance para sustentar os volumes projetados.
- ‘A Legitimidade Regulatória’ – A aprovação da GENIUS Act nos EUA estabelece que stablecoins reguladas devem ter reservas 1:1 em ativos de alta liquidez, auditorias regulares e segregação de fundos. Isso cria uma categoria de stablecoin apta para integração em sistemas bancários, processadoras de pagamento e plataformas de varejo – o pré-requisito para adoção em ponto de venda em escala.
Em síntese, os dados constroem uma cadeia causal coerente: crescimento orgânico acelerado + legitimidade regulatória + capital intergeracional + infraestrutura de pagamento = condições para que stablecoins deixem de ser instrumento de trader e se tornem a camada de liquidação padrão da economia digital global. O que ainda precisa ser provado é a velocidade dessa transição – e se os catalisadores se materializarão no prazo projetado.
O que muda na estrutura do mercado?
O efeito de primeira ordem é imediato e já está em curso: a demanda por infraestrutura de stablecoins – custódia, liquidez, on-ramps, compliance – está crescendo mais rápido do que a oferta de players habilitados para fornecê-la. As aquisições da Stripe (Bridge) e Mastercard (BVNK) não são apostas no futuro; são compras de capacidade instalada que essas empresas não conseguiriam construir do zero em tempo hábil. Para o ecossistema DeFi, esse movimento representa uma bifurcação: protocolos que constroem infraestrutura compatível com compliance institucional – como pools de liquidez com KYC, vaults regulados e oráculos auditados – terão acesso a capital institucional que hoje fica fora do DeFi. Como analisamos anteriormente no CriptoFácil ao cobrir o movimento de Wall Street em direção ao DeFi, os US$ 330 bilhões em ativos testando infraestrutura on-chain representam o prenúncio de uma integração que as projeções da Chainalysis presumem como inevitável.
O efeito de segunda ordem é a intensificação da competição entre emissores. Hoje, Tether (USDT) e Circle (USDC) controlam mais de 85% do mercado de stablecoins. Com a GENIUS Act criando padrões regulatórios claros nos EUA, novos entrantes institucionais – bancos, fintechs reguladas, processadoras de pagamento – terão incentivo para emitir stablecoins próprias ou adotar infraestrutura de emissores licenciados. Como analisamos anteriormente no CriptoFácil ao cobrir a USDG da Paxos ultrapassando US$ 1 bilhão na Solana, emissores regulados com infraestrutura técnica robusta estão ganhando participação de mercado de forma acelerada – um sinal de que a consolidação ainda está longe.
O efeito de terceira ordem é a bifurcação estrutural do ecossistema cripto entre stablecoins reguladas (compatíveis com GENIUS Act, baseadas nos EUA ou em jurisdições equivalentes) e stablecoins offshore (USDT em sua configuração atual, stablecoins algorítmicas, emissores sem licença). Essa divisão criará spreads de liquidez, custos de compliance diferenciados e, possivelmente, restrições de acesso em plataformas reguladas – obrigando traders e gestoras a escolherem em qual lado do mercado operar. O smart money já está monitorando essa divisão como variável-chave de posicionamento.
Quais os sinais de mercado que importam agora?
- ‘O Termômetro do Supply’ – Supply total de stablecoins atualmente em US$ 317 bilhões (R$ 1,84 trilhão). Se crescer para US$ 400 bilhões até o fim de 2025 ou início de 2026, confirma a trajetória em direção ao US$ 2 trilhões projetado pelo Standard Chartered para 2028. Uma estagnação abaixo de US$ 320 bilhões nos próximos 60 dias sinalizaria desaceleração estrutural que invalidaria a premissa de crescimento orgânico da projeção da Chainalysis.
- ‘A Velocidade de Circulação’ – Velocity de stablecoin (volume dividido por supply) dobrou nos últimos dois anos, segundo análise do Standard Chartered. Um aumento adicional nesse indicador – que pode ser monitorado via dados on-chain da Chainalysis e Nansen – confirmaria que stablecoins estão sendo usadas como meio de troca, não apenas como reserva. Stagnação da velocity mesmo com crescimento de supply indica acúmulo especulativo, não adoção real.
- ‘O Share Regulado’ – Proporção de volume em stablecoins com conformidade GENIUS Act (USDC, USDG, PYUSD) versus não reguladas (USDT offshore). Hoje, USDT domina com cerca de 65% do supply total. Se o share de stablecoins reguladas crescer para acima de 40% até 2027, confirmaria que a GENIUS Act está funcionando como acelerador de adoção institucional. Queda abaixo de 25% indicaria que o mercado prefere liquidez offshore à conformidade.
- ‘O TVL como Proxy de Confiança’ – Total Value Locked em DeFi, atualmente em torno de US$ 100 bilhões (R$ 580 bilhões), funciona como proxy da confiança do capital institucional em stablecoins on-chain. Um crescimento para US$ 150 bilhões (R$ 870 bilhões) confirmaria que a adoção institucional está avançando. TVL estagnado ou em queda enquanto supply de stablecoins cresce indicaria que capital novo está acumulando sem encontrar destinos produtivos – risco de bolha de liquidez.
- ‘A Adoção em Ponto de Venda’ – Número de comerciantes globais aceitando stablecoins diretamente, monitorado via relatórios trimestrais da Stripe pós-aquisição da Bridge e da Mastercard pós-BVNK. O primeiro benchmark relevante será o volume processado via esses canais no Q2 e Q3 de 2026 – se atingir US$ 100 bilhões trimestrais (R$ 580 bilhões), o catalisador de ponto de venda projetado pela Chainalysis começa a se materializar.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Efeito BRL: Com o dólar cotado a aproximadamente R$ 5,80 e o real brasileiro historicamente sujeito a ciclos de desvalorização associados a inflação, instabilidade fiscal e variações de juros americanos, stablecoins lastreadas em dólar já funcionam como instrumento de proteção cambial para o investidor brasileiro de varejo – e o fazem com liquidez imediata, 24 horas por dia, sem a necessidade de conta em banco americano. Uma projeção de US$ 1,5 quatrilhão em volume de stablecoins até 2035 implica que essa infraestrutura se tornará mais robusta, mais líquida e mais acessível ao longo da década – o que reduz o custo de entrada e saída de posições em dólar para o investidor brasileiro. O risco assimétrico está na concentração: manter mais de 20% do patrimônio em uma única stablecoin – especialmente emissores offshore sem regulação clara – expõe o investidor a risco de contraparte que o crescimento do mercado não elimina, apenas dilui.
Acesso prático: Você pode acessar stablecoins no Brasil hoje por meio de exchanges reguladas pela CVM e cadastradas na Receita Federal como Mercado Bitcoin, Foxbit, Binance Brasil e Coinbase. USDT e USDC são os pares mais líquidos no mercado local, com spread reduzido em relação ao dólar PTax. Para exposição indireta via mercado de capitais regulado, os ETFs de criptoativos na B3 – como HASH11 (índice cripto diversificado), QBTC11 (Bitcoin) e BITH11 – não oferecem exposição direta a stablecoins, mas capturam o crescimento do ecossistema cripto em geral. O DREX, o real digital do Banco Central do Brasil, representa a aposta soberana brasileira em infraestrutura de moeda digital – e sua interoperabilidade com stablecoins privadas ainda está sendo definida nas rodadas de teste do BC, representando uma variável importante para o mercado local em 2026 e 2027.
Nota tributária: Stablecoins são tratadas como criptoativos para fins fiscais no Brasil. Pela Lei 14.754/2023 e pela Instrução Normativa 1.888 da Receita Federal, você é obrigado a reportar a posse e as movimentações de stablecoins se o total de transações mensais superar R$ 35.000 – independentemente de haver lucro na operação. Lucros realizados na venda de stablecoins (por exemplo, ao converter USDC em reais) estão sujeitos a alíquotas de 15% a 22,5% dependendo do montante do ganho, conforme tabela progressiva de ganho de capital. O recolhimento deve ser feito via DARF até o último dia útil do mês seguinte à operação, e o controle é feito no programa GCAP da Receita. Dado o volume crescente de transações que a projeção Chainalysis implica e a intensificação da fiscalização de criptoativos pela Receita Federal, a recomendação do CriptoFácil é manter registros detalhados de todas as operações e consultar um contador especializado em criptoativos antes de qualquer movimentação relevante.
Os três cenários para stablecoins até 2035
Cenário otimista: A GENIUS Act cria um padrão regulatório americano exportado para União Europeia (via MiCA), Reino Unido e principais mercados emergentes até 2028. A transferência intergeracional de riqueza acelera a adoção de stablecoins como instrumento de liquidação padrão para herança digital, remessas e pagamentos B2B. Stripe, Mastercard e novos entrantes como bancos emissores de stablecoins próprias criam uma rede de aceitação em ponto de venda que compete diretamente com cartões de crédito. Volume atinge US$ 1,5 quatrilhão (R$ 8,7 quatrilhões) ou supera essa projeção até 2035. Para o investidor brasileiro, esse cenário implica liquidez crescente, spreads reduzidos e possível integração com o DREX – criando um corredor BRL-stablecoin de baixo custo.
Cenário base: Regulação americana avança mas fragmenta o mercado global, com jurisdições offshore mantendo stablecoins sem conformidade GENIUS Act em circulação paralela. Adoção em ponto de venda cresce, mas mais lentamente do que o projetado – concentrada em e-commerce e remessas internacionais antes de chegar ao varejo físico. Volume orgânico de US$ 719 trilhões é atingido, mas os catalisadores adicionais se materializam parcialmente, levando o volume total a uma faixa de US$ 800 trilhões a US$ 1,1 quatrilhão até 2035. Visa e Mastercard são igualados entre 2032 e 2036. Para o investidor brasileiro, stablecoins continuam sendo o melhor instrumento de hedge cambial acessível, mas sem a transformação sistêmica do cenário otimista.
Cenário bearish: Um evento de risco sistêmico – colapso de um emissor importante, hack de infraestrutura, restrição regulatória em grandes mercados como China ou Índia, ou reversão política nos EUA após 2028 – interrompe o ciclo de adoção institucional. Supply de stablecoins estagna ou recua, velocity cai, e o capital migra de volta para instrumentos tradicionais de reserva. Volume de 2035 fica abaixo de US$ 300 trilhões – crescimento real, mas longe da projeção central. Para o investidor brasileiro, esse cenário implica volatilidade pontual de stablecoins (incluindo possível depeg temporário de emissores menores), spread alargado nos pares BRL-stablecoin e maior custo de hedge cambial.
Riscos e o que observar
- ‘O Risco da Fragmentação Regulatória’ – A GENIUS Act estabelece padrões para os EUA, mas o mercado de stablecoins é global. Se União Europeia (MiCA), Reino Unido, Japão e mercados emergentes adotarem frameworks incompatíveis – ou restritivos -, a liquidez se fragmenta entre jurisdições e o custo de compliance explode, travando a adoção institucional. O que observar: progresso das negociações de equivalência regulatória entre EUA e UE em 2026; posicionamento do Banco Central do Brasil sobre stablecoins privadas no contexto do DREX.
- ‘O Risco de Concentração em USDT’ – Tether (USDT) ainda controla aproximadamente 65% do supply de stablecoins globalmente, operando com auditoria limitada e emissão offshore. Se um evento de desconfiança estrutural – questionamento de reservas, ação judicial americana, ou restrição de acesso a bancos correspondentes – atingir a Tether, o mercado de stablecoins sofreria um choque de liquidez com impacto imediato em DeFi, exchanges e spreads. O que observar: evolução das investigações do Departamento de Justiça americano sobre a Tether; crescimento do share de USDC e stablecoins reguladas como sinal de diversificação saudável.
- ‘O Risco da Velocidade de Adoção’ – A projeção de US$ 1,5 quatrilhão pressupõe que catalisadores como transferência intergeracional de riqueza e adoção em ponto de venda se materializarão dentro de um prazo específico. Ambos dependem de comportamento humano e infraestrutura tecnológica que historicamente levam mais tempo do que o previsto. A adoção de cartões de crédito no varejo americano, por exemplo, levou 30 anos para atingir penetração total após o lançamento do Diners Club em 1950. O que observar: relatórios trimestrais de volume da Stripe pós-Bridge e Mastercard pós-BVNK como proxies da velocidade real de adoção em ponto de venda.
- ‘O Risco Macro: Fed e Dólar’ – Stablecoins são, em sua maioria, instrumentos denominados em dólar americano. Um ciclo prolongado de dólar fraco – provocado por deterioração fiscal americana, perda de confiança no Tesouro, ou emergência de moedas digitais soberanas competidoras – poderia reduzir a demanda global por stablecoins em USD e redirecionar fluxos para stablecoins em euro, yuan digital ou outras moedas. O que observar: evolução do DXY (índice do dólar) e o avanço do e-CNY chinês como alternativa em mercados emergentes da Ásia e África.
- ‘O Risco de Competição de Narrativa’ – Bitcoin e ativos cripto voláteis competem por atenção e capital com stablecoins. Em ciclos de bull market intenso – como 2020-2021 e 2024 -, capital flui de stablecoins para ativos especulativos, reduzindo o supply disponível para uso em pagamentos e DeFi. Se Bitcoin superar US$ 200.000 (R$ 1,16 milhão) em um próximo ciclo, a migração de capital pode distorcer temporariamente as métricas de stablecoin. O que observar: ratio entre supply de stablecoins e market cap total de cripto – quando esse ratio cai abaixo de 8%, historicamente indica euforia especulativa que precede correções.
O gatilho mais importante a monitorar nos próximos 30 a 90 dias é o volume processado pela Stripe via Bridge e os primeiros números de transação da Mastercard com BVNK integrado. Esses dados, esperados para o segundo e terceiro trimestres de 2026, serão o primeiro teste empírico de se a adoção em ponto de venda está se materializando na velocidade que a projeção da Chainalysis pressupõe – ou se o mercado ainda precisa de anos adicionais de desenvolvimento de infraestrutura antes de atingir a escala descrita.
O que muda – e o que permanece igual
O que a projeção da Chainalysis confirma é que stablecoins cruzaram o limiar de instrumento de nicho para infraestrutura financeira em disputa com redes tradicionais. O crescimento de 133% ao ano em volume ajustado desde 2023, os US$ 28 trilhões processados em 2025 e os movimentos de aquisição de Stripe e Mastercard são fatos – não projeções. O que ainda precisa se provar é se os dois catalisadores identificados pela Chainalysis – transferência intergeracional de riqueza e adoção em ponto de venda – se materializarão no prazo e na escala projetados, ou se enfrentarão os mesmos atrasadores estruturais que historicamente desaceleram a adoção de novas infraestruturas financeiras.
O cenário é binário: se a GENIUS Act estabelecer um padrão regulatório que ganhe equivalência internacional, a transferência de US$ 100 trilhões intergeracionais fluir em proporção significativa para stablecoins, e Stripe e Mastercard construírem redes de aceitação em ponto de venda que cheguem ao varejo físico até 2030 – então stablecoins se tornam a infraestrutura padrão de liquidação global, o DeFi cresce por ordem de magnitude, e o investidor brasileiro terá acesso ao melhor hedge cambial de baixo custo da história, com liquidez 24 horas e custos de entrada próximos de zero – ou a fragmentação regulatória, o risco de contraparte concentrado em USDT, e a lentidão histórica de adoção de novas infraestruturas de pagamento seguram o mercado muito abaixo de US$ 1,5 quatrilhão, e stablecoins chegam a 2035 como ferramenta poderosa mas ainda restrita a usuários de cripto e remessas internacionais, longe de substituir os trilhões de Visa e Mastercard. Até lá, paciência é o único ativo que não desvaloriza.

