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Cango registra prejuízo de US$ 452 milhões no primeiro ano como mineradora de Bitcoin

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A Cango Inc. (CANG), empresa que surpreendeu o mercado ao pivotar do comércio de automóveis para a mineração digital, divulgou nesta segunda-feira (16) um prejuízo líquido massivo de US$ 452,8 milhões (aproximadamente R$ 2,6 bilhões) em seu primeiro ano completo de operações no setor. O resultado reflete as dores de crescimento de uma transformação corporativa radical e o impacto contábil da volatilidade dos ativos digitais em seu balanço.

Embora a empresa tenha minerado uma quantidade significativa de Bitcoin durante o período, os custos de reestruturação e a desvalorização contábil de equipamentos pesaram na balança. O movimento ocorre em um cenário onde a eficiência operacional é a única barreira entre a sobrevivência e a insolvência para as mineradoras públicas. A pergunta que domina as mesas de operação é clara: esse prejuízo é um tropeço fatal ou o custo inevitável de uma metamorfose corporativa?

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O que explica essa situação?

Em termos simples, imagine uma fábrica de automóveis que decide, do dia para a noite, parar de montar carros para começar a processar ouro. Durante a reforma, ela precisa vender as máquinas antigas com desconto e comprar equipamentos novos a preços de mercado flutuantes, tudo isso enquanto o preço do ouro sobe e desce diariamente. O resultado financeiro da Cango é o retrato dessa “reforma com a fábrica rodando”.

O prejuízo reportado não significa necessariamente que a empresa queimou US$ 452 milhões em dinheiro vivo. Uma grande parte desse valor vem de ajustes contábeis — chamados de “fair value adjustments” e “impairments”. Isso ocorre quando o valor dos ativos (sejam máquinas de mineração ou o próprio Bitcoin mantido em tesouraria) cai no papel, obrigando a empresa a registrar a perda antes mesmo de vender o ativo. É como se você tivesse comprado um carro por R$ 100 mil e, no final do ano, ele valesse R$ 80 mil; contabilmente, você “perdeu” R$ 20 mil, embora o carro ainda esteja na garagem.

Além disso, a operação de mineração exige um maquinário específico e voraz por energia. Como detalhamos em reportagens sobre o contexto operacional do setor, a infraestrutura física é crucial. Assim como o Paraguai usará ASICs apreendidos para minerar Bitcoin visando eficiência de custo, a Cango teve que investir pesado para manter suas 32 EH/s de potência competitivas, o que gerou custos de depreciação acelerada em um mercado onde o hardware se torna obsoleto rapidamente.

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Quais são os dados e fundamentos destacados?

Os números apresentados no balanço anual da Cango revelam uma operação agressiva, mas custosa. Confira os destaques:

  • Prejuízo Líquido: US$ 452,8 milhões (R$ 2,6 bilhões) — “O Custo da Metamorfose”
    O valor inclui custos não recorrentes de transformação e ajustes de valor justo. É um número assustador à primeira vista, mas carrega muita “sujeira” contábil que não necessariamente impacta o caixa imediato.
  • Produção de Bitcoin: 6.594,6 BTC — “A Colheita Digital”
    Com uma média de 18,07 BTC por dia em 2025, a Cango se estabeleceu como um player relevante em termos de hashrate, acumulando um total de 7.528,4 BTC desde o início das operações no final de 2024.
  • Perdas por Ajuste e Impairment: US$ 252,8 milhões (R$ 1,45 bilhão) — “O Choque de Realidade”
    Deste total, US$ 171,4 milhões vieram da mudança no valor justo das garantias em Bitcoin e US$ 81,4 milhões da desvalorização de máquinas de mineração.
  • Venda de Estratégica: US$ 305 milhões (R$ 1,75 bilhão) — “O Combustível para IA”
    Já no início de 2026, a empresa vendeu cerca de 60% de suas reservas de Bitcoin para pagar dívidas e financiar sua nova aposta em infraestrutura de Inteligência Artificial.

Esses dados mostram uma tendência clara no setor: a mineração pura de Bitcoin está se tornando apenas uma parte do negócio. Grandes players estão buscando diversificação para sobreviver. Isso se alinha com movimentos de outras empresas, como vimos quando a Bitdeer expandiu operações apostando em altcoins e novas tecnologias para não depender exclusivamente da recompensa do bloco do Bitcoin.

O que os dados de mercado revelam?

O movimento da Cango expõe uma dinâmica crítica para o preço do Bitcoin: a pressão vendedora dos mineradores. Diferente de investidores de longo prazo, mineradores têm contas de luz e dívidas operacionais para pagar em moeda fiduciária. Quando uma empresa do porte da Cango despeja US$ 305 milhões em Bitcoin no mercado secundário para financiar um pivô para Inteligência Artificial (IA), isso cria uma barreira de oferta que os touros precisam absorver.

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A Cango não está sozinha. A Core Scientific e a MARA Holdings também sinalizaram vendas de seus estoques para financiar a infraestrutura de IA e data centers. Isso sugere que o Bitcoin, para essas empresas, está deixando de ser um ativo de tesouraria intocável para se tornar um mecanismo de financiamento de capital de giro (Working Capital). Enquanto a demanda institucional continua forte, com empresas como a Strategy comprando BTC e absorvendo a oferta, a venda massiva por parte dos mineradores atua como um contrapeso que pode limitar ralis explosivos no curto prazo.

Para você, investidor brasileiro

Para o investidor brasileiro, a situação da Cango serve de alerta sobre a exposição ao setor de mineração via mercado de ações. Muitos investidores locais buscam ações de mineradoras listadas nos EUA (como MARA, RIOT ou a própria CANG) como uma forma alavancada de apostar no Bitcoin. No entanto, o balanço da Cango prova que minerar Bitcoin não é a mesma coisa que comprar Bitcoin.

Ao investir em uma mineradora, você assume riscos operacionais (custo de energia, depreciação de máquinas) e de gestão (pivôs estratégicos para IA, endividamento). Com o dólar girando na casa dos R$ 5,80, a volatilidade dessas ações é amplificada para quem opera daqui. Se o seu objetivo é a valorização do ativo digital, a compra direta do Bitcoin ou via ETFs locais costuma ser mais eficiente e menos custosa do que tentar acertar qual empresa fará a transição para IA com sucesso.

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Se você opera em corretoras internacionais e tem exposição a esses papéis, a recomendação é cautela redobrada. O setor está canibalizando suas reservas de BTC para sobreviver e tentar surfar a onda da IA. Isso pode gerar valor no longo prazo, mas traz um risco de execução brutal no curto prazo.

Riscos e o que observar

Para os próximos meses, o cenário exige atenção a pontos específicos que podem definir o futuro da Cango e do setor:

  • Risco de Execução na IA: A empresa está vendendo o “ouro digital” (Bitcoin) para comprar “pás” de IA (infraestrutura). Se a demanda por computação de IA não crescer como projetado, a Cango ficará sem Bitcoin e com data centers ociosos.
  • Capitulação de Mineradores: Se o preço do Bitcoin cair abaixo do custo de produção (atualmente alto para muitos players ineficientes), mais empresas podem ser forçadas a liquidar seus tesouros, derrubando o preço globalmente.
  • Custos de Energia: A eficiência energética é o “calcanhar de Aquiles”. A Cango opera em múltiplas jurisdições, o que dilui o risco geográfico, mas aumenta a complexidade logística.

O gatilho a ser observado é o próximo relatório trimestral de produção de BTC versus a receita proveniente dos novos contratos de IA (EcoHash). Se a receita de IA começar a cobrir os custos fixos, a tese de investimento muda. Até lá, paciência é o único ativo que não desvaloriza.

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